Como analisar um videoclipe?

Analisar um videoclipe não é tão complicado, visto como os fãs e a mídia conseguiram chegar a conclusões tão interessantes assistindo a “Look What You Just Made Me Do” de Taylor Swift nos últimos tempos. A análise de um videoclipe é descritiva e questionadora e não poderia ser diferente já que com o cérebro que temos é quase impossível não julgar, criticar, concluir e analisar o que além de visto é ouvido. O videoclipe é a embalagem da canção. No modelo proposto aqui não há absolutamente nenhum mistério, mas é preciso ter um certo cuidado pois como já dizia Umberto Eco, “interpretação tem limites”.  Uma metodologia que tenha o objetivo de análise deste tipo de obra audiovisual, em linhas gerais, pode ser amparada dentro do conceito utilitário na normatização de interpretação proposta por Vanoye e Goliot-Lété, mas calma, não vou transformar este post num artigo acadêmico não.  A partir disto, vamos a um passo a passo que eu utilizo nos textos que vocês leem aqui no blog. Achei mais fácil e didático colocar em tópicos e não em um “texto corrido” para que sirva de modelo para quem interessar. No final você pode chegar a conclusão de que sempre soube interpretar videoclipes e que para isto é preciso apenas responder a algumas perguntas:

  • Em que contexto histórico está inserido o videoclipe? O que vemos e ouvimos dentro do campo artístico pode está refletindo o que acontece no mundo. Recentemente a Rolling Stone fez uma matéria muito interessante relacionando o fato da música pop estar ficando mais devagar com algumas questões políticas. No entanto, o social também pode estar ausente da obra e não há a obrigação em relacionar o trabalho com o que está acontecendo no planeta, mas é sempre bom lembrar que o todo acaba nos afetando de alguma forma.
  • Após assistir ao clipe, na sua concepção, sobre o que a obra fala e por que o videoclipe foi feito daquela forma do primeiro ao último segundo? O que há de biográfico no videoclipe? Sendo mais sintético: o que da vida pessoal do artista em questão está sendo encenado ali com ou sem metáforas? Descreva as cenas, fale sobre os figurinos, maquiagem, direção de arte e detalhes sutis e informe as proximidades entre canção e imagem: o que nos é apresentado imageticamente corresponde ao que é dito na canção ou se distancia? As vezes as imagens falam sobre algo diferente do que está sendo dito na letra da música. Por que isto acontece?
  • Caso deseje organizar melhor as informações, você pode fazer uma tabela como esta:

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Na tabela completa constam os seguintes campos:

  1. Figurino da cantora
  2. Maquiagem da cantora
  3. Semelhança a outros personagens
  4. Gestual / movimentação
  5. Dublagem / atuação cênica
  6. Direção de arte
  7. Concepção de set
  8. Direção de fotografia
  9. Efeitos gráficos / especiais
  10. Edição / cortes / ritmo
  11. Articulação do tempo no clipe
  12. Semelhança do clipe a outros audiovisuais
  13. Relação do clipe com a iconografia do CD

“A direção de arte vai compor a identidade visual de um produto audiovisual, sendo resultado, portanto, de uma articulação entre técnica e conceito, princí- pio e fim. Para tratarmos da direção de arte, precisamos desconstruir a atividade analítica da imagem, como propôs Roland Barthes com a imagética publicitária, em dois campos: os signos icônicos e os signos plásticos. […] Já os signos plásticos evocados por Barthes visam categorizar e desconstruir os elementos de ordem de efeito de pós-produção no videoclipe. Texturas, interferências gráficas, digitais, enfim, um manancial de efeitos que, aos olhos do analista, compõem um contexto significativo do clipe”. (SOARES, 2012)

  • Fale sobre como o artista se apresenta no videoclipe. Ele atua ou faz a linha Sia e não gosta de holofotes? Não aparecer em um videoclipe pode dizer muito sobe dinâmicas da indústria musical além de gostos pessoais do artista. Como são os gestos do artista? Ele(a) dança? Como aquela pessoa que está cantando se apresenta para quem assiste?
  • Como se apresenta o tempo no videoclipe? Ele está em algum turno específico? É possível ver o céu? Há relógios? O universo em que o clipe se apresenta encena algum momento histórico real pelo qual a humanidade passou? Qual? Por que?

 

 Cuidado!

  • Videoclipes muito simples podem ganhar um sentido amplificado. É muito comum que o ‘conceitual’ chegue ao público de forma aparentemente minimalista como percebemos nesta análise (abaixo) de “Tennis Court” da cantora Lorde. Perceba que na ausência de várias tomadas, planos e cenários, o analista se atentou aos movimentos e expressões da artista.

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  • É fã do artista? Tente manter o bom senso. Dentro dos estudos em cultura pop, sim eu sei, se você morre pela sua diva, vai ser difícil não enaltecê-la, mas contenha-se. Você está questionando, analisando, usando seu olhar crítico e não fazendo comentários na página do Papel Pop. Elogie o que pode ser elogiado sem necessariamente fazer uma ode e rasgar metros e metros de seda. Não faça vista grossa a erros de continuidade e edição, por exemplo.
  • Não é necessário seguir a ordem proposta, mas é importante falar no começo da análise sobre quem você está analisando para situar quem está lendo.
  • Importante destacar que mesmo que a canção não tenha sido composta pelo artista, o clipe pode apresentar elementos que se alinhem com questões biográficas do intérprete.
  • Nada do que você vê em um videoclipe está lá por acaso.
  • Analisar um videoclipe ou qualquer obra visual é sim, em determinados momentos, se ater e explicar determinado quadro, se tratando de um videoclipe ou filme por exemplo. Contudo, obviamente, não é interessante uma descrição quadro a quadro explicando cada segundo da obra. Entenda o clipe como um texto que só faz sentido com todas as palavras e pontuações em conjunto.
  • O diretor de um videoclipe é sim importante e eles estão se destacando assim como vemos na área cinematográfica, no entanto, ele é apenas alguém que “ornamenta” o audiovisual, assim, o videoclipe é uma extensão corporal do artista ao qual damos 98% dos créditos da obra. Sintetizando: não é comum falar da “estética do diretor tal” ou de outras particularidades desse profissional numa análise de videoclipe como vemos na crítica cinematográfica. É sempre o artista versus o artista e o videoclipe.

Com este modelo (dicas, quem sabe) de análise não estou querendo bancar o chato e impor duras regras para analisar videoclipes, mas delimitar o trabalho de quem analisa a obra a fim de que o resultado seja objetivo e que relacione todos os elementos e forme sentido. Analisar um videoclipe depende do quanto você sabe sobre o artista e, em geral, dentro do campo de observação da cultura pop, os estudiosos não realizam trabalhos sobre movimentos, bandas e cantores que eles não se sentem atraídos ou tocados e por isso a importância de manter um certo distanciamento no momento da análise. Os artistas que amamos nos seduzem de tal modo que um peido que eles venham soltar pode nos deixar deslumbrados.

 

 


Referência

SOARES, Thiago (2004a). Videoclipe: o elogio da desarmonia. Recife: Livro Rápido. 2012.

_______________. A Estética do Videoclipe. João Pessoa. Editora da UFPB, 2013.

VINES DE LORDE. [comentário pessoal ou de organização]. Facebook. 13 dezembro 2014. Disponível em <https://www.facebook.com/vineslorde/videos/841003899295965/&gt; Acesso em 12 out. 2017.

 

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Melancolia e Cultura Midiática Parte III: Lady Gaga, monstruosidades e a Arte Romântica

O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco. 


 

Levando em consideração que há muito do passado presente na produção artística atual, deve-se inicialmente contextualizar o que precedeu os “românticos da nova era” se é que podemos classificar Lana Del Rey e Lady Gaga como tal. Segundo relatos dos livros de literatura e história das artes, os românticos do século XIX não se vestiam de preto nem marcavam os olhos com delineador. Parece-nos, em primeiro momento, que a tribo dos góticos e algumas outras dissidentes do rock trouxeram para as ruas o estilo de vida partindo do que é representado nas obras de arte. É quase cômico imaginar um artista como Goya vestido de preto, com olhos pintados e com uma franja escondendo os olhos:

 

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Figura 6 – GOYA, Francisco. O sonho da razão produz monstros. (c. 1793-99). Saragoça: Museu de gravuras de Goya. Fonte: LANDEIRA e VIEIRA (2005, p. 298)

Na imagem autobiográfica de Goya, o pintor figura caído, derrotado, e várias feras parecem emergir dele. Tanto na obra de Lana como na de Gaga, é possível perceber varias referências aos monstros e feras. A palavra “sueño”, em espanhol, tanto pode significar sono como sonho. Essa duplicidade é interessante ao analisarmos a figura. O artista dorme e a razão aproveita o sono do artista para liberar todos os seus fantasmas e perturbações. Por outro lado, há o sonho do artista em desejar desmascarar todos os monstros da sociedade. Para esse fim, Goya está disposto a utilizar a sua melhor arma: a arte” (LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 298).

A figura do “monstro” é bastante evocada tanto na obra de Lana Del Rey como na de Lady Gaga. Na canção Monster[1], Gaga atribui a um amante a culpa da traição, o homem é representado como uma criatura sedutora, capaz de devorá-la. Se considerarmos também a persona artística de Lady Gaga, podemos perceber que a maneira como ela aparece na mídia também faz referência ao “monstro”, um monstro não usual,  feminino. É possível perceber também, num contraponto entre Goya e as artistas em questão, que todos têm consciência dos próprios “monstros” e dos “monstros” que assolam o mundo, no entanto há uma certa impotência quanto a resolução e aniquilação dessas feras destrutivas.

Por outro lado, se levarmos em conta a performance de Lady Gaga nos shows e a postura que ela assume diante dos fãs, dá para identificar um comportamento combativo diante de alguns males da sociedade. A cantora procura manter diálogo com os fãs, sendo bastante próxima de minorias como os gays. Ela frequentemente passa mensagens de aceitação, tema que é claro na canção Born this Way[2].

Seria Lady Gaga, deixando as interferências vindas do marketing, uma espécie de heroína romântica? Os fãs da artista, apelidados carinhosamente por ela como Little Monsters (Monstrinhos em português), são bastante devotos de Gaga, defendendo-a e atribuindo a ela as próprias conquistas, a autoaceitação, e a liberdade de poder exprimir-se da forma como querem. Lady Gaga, dentro dos padrões normativos sociais, se apresenta como alguém à parte de regras e não é enquadrada num modelo “exemplar” de individuo pelo uso de drogas e pela forma como o sexo influi nas suas composições. A proposta aqui não é a de julgar a artista mas de fazer apontamentos que podem se chocar com algumas características estéticas. Assim, partimos do fato de que o sexo, as drogas e um comportamento que foge a um manual ainda seguido pela sociedade levam o artista a um estado melancólico, de reflexão. Para Duarte[3] (s.d):

Digamos que o herói romântico vive em conflito com a sociedade opressora, tornando-se alvo de inúmeros questionamentos mediante os fatos por ela evidenciados. Para tanto, sua atitude oscila entre um ser ora marginalizado, desregrado, ora dotado de virtudes, justamente como forma de rebelar-se contra tal realidade. Esse herói muitas vezes é representado por figuras históricas ou por figuras idealizadas em virtude de seus próprios feitos, como, por exemplo, o cavaleiro medieval. (DUARTE, s.d, informação eletrônica)

O Romantismo é uma forma de arte subjetiva, onde a própria arte não poderia sobreviver separada da vida: para os românticos o que importa é a realidade de si cujo entendimento seria o primeiro passo para a compressão do mundo. “Tinha vontade de fazer da minha vida uma obra de arte” diz Del Rey em entrevista[4] a para o site My Space, já na letra da canção Applause[5], Gaga diz: “A cultura pop estava na arte, agora a arte está na cultura pop, em mim!”. Vejamos como o portal Rolling Stone [6](STRAUS, 2010, informação eletrônica) caracteriza Lady Gaga relacionando-a a arte:

É um exemplo de performance de arte altamente pessoal, fantasiada de espetáculo pop. Como ela repete vez após outra durante o show, ela é uma “free bitch” (algo como uma “louca livre”) e o público deve agir da mesma maneira: libertar-se não apenas das pressões da sociedade para se adaptar mas também do poder dos homens em sua vida, que tentam controlá-lo ou defini-lo (STRAUS, 2010, informação eletrônica)

Os românticos são emotivos e buscam lançar ao mundo toda a melancolia que guardam através das artes. Ainda segundo Ribeiro[7] (2013). A estética do romantismo está “próxima das formas barrocas, composição diagonal sugerindo instabilidade e dinamismo ao observador, valorização das cores e do claro-escuro, dramaticidade, fatos reais da história nacional e contemporânea da vida dos artistas, natureza revelando um dinamismo equivalente as relações humanas e a mitologia grega” Na arquitetura, observa-se o retorno das formas medievais como o estilo gótico:

O eu romântico, objetivamente incapaz de resolver os conflitos com a sociedade, lança-se à evasão. No tempo, recriando uma Idade Média gótica e embruxada. No espaço, fugindo para ermas paragens ou para o Oriente exótico. A natureza romântica é expressiva. Ao contrário da natureza árcade, decorativa. Ela significa e revela. Prefere-se a noite ao dia, pois à luz crua do sol o real impõe-se o indivíduo, mas é na treva que latejam as forças inconscientes da alma: o sonho a imaginação (BOSI apud LANDEIRA, VIEIRA, 2005, p.3007).

A arte romântica, tanto literária quanto no campo das artes plásticas ao longo dos anos, passou a ser apreciada por vários segmentos do rock, que introduziu os elementos dentro das representações imagéticas. Como já foi dito antes, a moda no rock aparece de forma bastante peculiar, como se o que era visto nas obras românticas agora fosse transposto para as ruas e galerias.

Antes os artistas pintavam seus quadros, faziam seus poemas, hoje é como se a indissociabilidade entre o que é arte e o que é vida estivesse em um nível maior, talvez pela liberdade de expressão que se materializa nas roupas e na consolidação de uma estética densa e obscura dos videoclipes. No clipe musical de You and I, faixa do álbum Born This Way, Gaga aparece vestida de preto retornando, em luto, às origens de um passado perdido. Vemos Lady Gaga como uma típica rockeira em uma encruzilhada, num lugar que parece distante da cidade. Na música, a artista fala do retorno ao seu amor perdido, remete as lembranças do período de conquista e do começo do romance. Ela se mostra saudosista em relação a suas origens, ao lugar onde viveu o amor, características essencialmente românticas:

 

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Figuras 7 e 8 – Frames do videoclipe da canção You & I. Fonte: Canal Oficial da artista no YouTube.

A proposta neste tópico não é de analisar os clipes citados, visto que esta parte será feita posteriormente, mas apontar tópicos que enquadram as artistas dentro das correntes artísticas trabalhadas. Assim, uma característica também romântica é fuga para o mundo dos sonhos, do lúdico. A fotografia em You and I se apresenta obscura, tem muito preto, tons de verde escuro militar e marrom. No clipe, Gaga aparece também vestida de sereia e também metade humana, metade robô, aliando o mundo de fantasia ao clipe. Diz a lenda que o único jeito de calar uma sereia é cantar melhor do que ela e no mundo pop, atualmente, a erudição do cantar tem sido cobrada ao extremo por fãs e pela crítica. Lady Gaga como uma sereia também pode ser traduzido como uma possível metáfora para a característica multifacetada da artista ou incômodo de Gaga frente a um mundo que quer torná-la “normal”. Evoca-se mais uma vez a figura do “monstruso”:

A insatisfação com o mundo leva o romântico a fugir da realidade, expressando suas obras de várias maneiras: fuga para a natureza, fuga para o passado, fuga para o lado noturno de vida, para o misticismo, o sobrenatural, o sonho, a loucura ou a própria morte. (RIBEIRO, 2013, informação eletrônica)

No clipe de Born to Die, veremos na análise posterior do vídeo como um dos objetos estudados neste trabalho, também encontramos traços fortes de nacionalismo, tema que também é bastante recorrente na obra de Lana Del Rey, nacionalismo que é considerado uma das marcas do romantismo. “Tell me I’m your national anthem! Red, white, blues in the skies, summer’s in the air and baby heaven’s in your eyes”, canta Lana em uma das faixas do álbum Born To Die, intitulada National Anthem.


[1] Faixa do álbum The Fame Monster (2009).

[2] Faixa do álbum homônimo lançado em 2011.

[3] A autora define o Romantismo no site educacional Alunosonline.com. Não há data especificada no site nem numeração de página. Disponível em < http://www.alunosonline.com.br/portugues/romantismo.html > Acesso em 15. Dez. 2014.

[4] Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=cu7dApJNQ9U > Acesso em 24 dez. 2014.

[5] Faixa do álbum Artpop (2013).

[6] Em um trabalho sobre cultura pop, é importante pesquisar como a mídia trata as artistas em questão, daí a necessidade de chegar portais e blogs especializados no assunto. É importante destacar também, que é comum no jornalismo a não identificação do autor da matéria o que pode ser notado nas referências ao longo deste trabalho.

[7]  A autora disponibilizou o material em formato de slides. Disponível em <http://pt.slideshare.net/profmarcela/esttica-romntica&gt; Acesso em 1. Dez. 2014.


Referências na ordem em que aparecem no texto

LANDEIRA, Luís J; VIEIRA, Alice. Língua Portuguesa. Brasília. ed. Cisbrasil. 2005

DUARTE, V. M. N. Romantismo no Brasil. (s.d). Disponível em < http://www.alunosonline.com.br/portugues/romantismo.html > Acesso em 15. Dez. 2014.

STRAUSS, Neil. O Coração Partido e as Fantasias Violentas de Lady Gaga. Rolling Stone. São Paulo. 2010. Disponível em <http://rollingstone.uol.com.br/edicao/46/lady-gaga-entrevista?page=2#imagem0 >. Acesso em 23. Dez. 2012.

RIBEIRO. Marcela M. A Estética Romântica. 10 slides. 2013. Disponível <http://pt.slideshare.net/profmarcela/esttica-romntica&gt; Acesso em 1. Dez. 2014.

Melancolia e Cultura Midiática Parte II: Lana Del Rey e a Arte Barroca

O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco. 


A arte barroca, de berço romano, teve grande expressão entre o fim do século XVI e a primeira metade do século XVIII como uma das respostas ao racionalismo do período Renascentista que pregava uma forma de arte contida, discreta, prezando a simetria. Este ar comedido era imposto pelas igrejas que não queriam distrações dos fieis durante os momentos de oração onde deveriam ficar totalmente em contato com Deus. A palavra “Barroco” em seu significado etimológico quer dizer “grotesco”, “sem forma definida”, “retorcido” e veio para emocionar, impactar a quem via as obras.

O período de apogeu desta corrente, que compreende todo o século XVII, foi um momento em que o mundo se encontrava atento a questões ligadas a espiritualidade, um período de muitos conflitos religiosos e o Barroco procurava, digamos, atenuar o maniqueísmo buscando o equilíbrio entre forças opostas: bem e mal, Deus e o Diabo, razão e emoção, pureza e pecado, alegria e tristeza.

A arte, especificamente as artes plásticas – parte que nos interessa por estarmos tratando essencialmente de estética – tinha uma fidelidade maior entre o que era real e o que era expresso pelos artistas em suas obras. Ao contrário das artes renascentistas, o barroco procurava representar o ser humano entre a linha tênue do que era belo e do que era feio e natural do homem.  A arte Barroca é realista, dramática, exagerada, dinâmica, inclinada ao sofrimento e possui como marca o jogo de luz e sombras deixando as figuras humanas iluminadas contrastando geralmente com um fundo escuro. A estética Barroca remete a “uma arte violenta e dinâmica, possuída pela dupla consciência da cisão do mundo e de sua unidade, arte do claro-escuro, contrastes, paradoxos, rebuscadas inversões e cintilantes afirmações”. (PAZ apud LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 208).

Assim, podemos estabelecer pontos de melancolia nas representações barrocas, pois o drama humano é sempre recorrente “tornando-se o elemento básico, geralmente, acompanhado de gestos muito expressivos e teatrais” (LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 208). Teatralidade que está presente nos clipes de Lady Gaga e Lana Del Rey, esta última mais próxima da cinematografia. Entre os pintores mais famosos do Barroco estão: Caravaggio, Jan de Heem, Velázquez, Rembrandt e Bruegel. No Brasil podemos situar o artista mineiro Ataíde.

Assim é o barroco, um oxímoro, arte paradoxal que remete às contradições humanas da vida como nos conta muito bem Caravaggio na obra “Baco” (1590). Algumas características desta obra e do barroco serão utilizadas ao analisar, principalmente, a estética melancólica de Lana Del Rey:

 

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Figura 1– CARAVAGGIO, Michelangelo. Baco (1590). Florença. Uffizi. Fonte: LANDEIRA e VIEIRA (2005, p. 208)

A beleza feminina, andrógina de Baco – considerado Deus do vinho, das festas, excessos e dos prazeres sexuais, contrasta com os braços musculosos e nos passa um olhar entorpecido, seduzindo a “vítima”.  Ele parece nos convidar para uma noite regada a muito vinho, sexo e rock n’ roll. Percebe-se também as peculiaridades do barroco: a obra se dispõe assimétrica, densa. Baco aparece iluminado com um pano de fundo escuro e há o uso de sombras como é perceptível na garrafa de vinho. É possível ressaltar ainda que, como há a representação de um deus mitológico, o Barroco também tange para o lado religioso, contudo, não é somente o belo, o sexualmente atrativo que está representado no barroco. Há o feio que também é de natureza humana e há alguns ideais de liberdade presentes na obra que se assemelham ao discurso live-fast-die-young de Lana Del Rey nos clipes e na música:

Mas, vamos lembrar-nos de que, na vida, todo o prazer é transitório e de curta duração, o artista mostra-nos também frutas que já passaram ligeiramente do ponto: a romã, símbolo da coroa de espinhos do Cristo, está demasiadamente madura, e a maçã, símbolo do pecado original, está bichada. Caravaggio representa, dessa maneira, os temas do Tempus fugit (uma expressão latina que significa “o tempo passa”) e o Carpe Diem (outra expressão latina que significa “aproveite o dia”, ou seja, ”viva intensamente cada momento”. Sendo a vida tão breve e passageira, Baco nos incentiva a esquecermos o amanhã e entregarmo-nos ao momento presente, vivendo-o intensamente (LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 2009).

Até aqui tomamos esta corrente com uma arte sombria, detalhada, que tenta se aproximar da representação humana com todas suas qualidades, defeitos e angústias que vão de encontro à tentativa de compreensão das contradições do mundo. Há também, além de todas as características elencadas, a questão religiosa, como dito anteriormente – tema que é explorado em Tropico[1], curta metragem musical da cantora Lana Del Rey lançado no ano de 2013. As questões religiosas são referências recorrentes na obra da artista, mas para fins demonstrativos e pelo fato da produção visual concreta da cantora em Tropico, vamos utilizar o filme citado.

Durante a música Body Eletric, Lana aparece interpretando Eva (do conto bíblico Adão e Eva). Marylin Monroe, Elvis Presley e Jesus Cristo também aparecem no vídeo. No curta, em uma das cenas, Eva caminha junto com Adão numa espécie de Jardim do Éden pós-apocalíptico. Ainda é possível ver um unicórnio, animal mitológico que simboliza a força e a pureza. No mito original do unicórnio, apenas as mulheres virgens e puras são capazes de domá-lo.

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Figura 2 – FrameTropico (2013)

Em Tropico, Lana Del Rey caminha numa espécie de paraíso – pelas referências, parece ser o Jardim do Éden. Em algumas cenas ambos, o Adão e a Eva pós-apocalípticos, aparecem em danças sensuais, como se estivessem profanando o paraíso e Lana ainda aparece brincando com uma serpente, animal que no conto épico original, seduziu Eva fazendo-a comer o fruto proibido acarretando a expulsão do casal do paraíso. O unicórnio mostrado na cena também faz parte das representações artísticas do estilo barroco como podemos notar na obra La Doncella y el Unicornio (1602) do pintor Domenichino Zampieri (1581 – 1641):

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Figura 3 – ZAMPIERI, Domenichino. La Doncella y el Unicornio (1602).Roma. Palácio Farnese. Fonte: Es.wahooart.com.
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Figuras 4 e 5 – FrameTropico (2013)

Assim como no Romantismo, dentro do Barroco podemos notar a existência de figuras oníricas, como é o caso do unicórnio que aparece em Tropico. É o que podemos chamar de “criaturas monstruosas”, de um mundo fantasioso, e a beleza do unicórnio não o exclui de sua monstruosidade. Na religião católica, o cavalo branco com apenas um único chifre representava, na idade média, a pureza da mãe de Jesus Cristo e reencarnação de Deus. Há portanto, um jogo conflituoso entre o bem (o unicórnio) e o mal (a cobra) na obra de Lana.

 


[1] No curta, são apresentadas ao público as canções Bel Air, Body Eletric e God’s and Monsters do álbum Born to Die – The Paradise Edition.

 


 

Referências na ordem em que aparecem no texto

LANDEIRA, Luís J; VIEIRA, Alice. Língua Portuguesa. Brasília. ed. Cisbrasil. 2005

Taylor Swift: nossa pior face que não gostamos de ver

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Por que Taylor Swift é tão odiada? É natural que nos comentários dos maiores portais especializados em música e cultura pop a gente se depare com os haters apontando defeitos e fracassos de determinado artista, mas quando se trata de Taylor Swift a mobilização parece ser bem mais extrema, já notaram? De fato os fãs de música pop acabaram se equiparando a torcedores de futebol e as grandes premiações musicais são praticamente finais de um campeonato esportivo. Não vou negar que acho toda a movimentação bem divertida de acompanhar e acabo rindo bastante. Todo o furor em torno da cantora me levou à pergunta que abre este texto e algumas questões vieram à tona desde a aparência da artista até como ela se comporta dentro do campo midiático e o que temos acesso de sua vida pessoal. Estaria Taylor sendo vítima da imagem que ela criou para interpretar a pessoa que todos dizem que ela é?

Tudo começou no VMA de 2009 onde aconteceu toda aquela confusão com Kanye West, certo? Não vou entrar em detalhes, pois já saturou. Na época, todos tiveram pena da mocinha e o rapper parecia o Lobo Mal. De 2009 pra cá, a carreira de Swift foi alavancada pelo “Speak Now” (2010) e o “Red” (2012)” e, desta forma, a crítica e o público passaram a dar atenção a temática das canções. A matéria prima para composição de Taylor Swift são os namoros fracassados e todos sabem disso, tanto sabem que a opinião popular considerou que a artista se envolvia em muitos relacionamentos. O consagrado apelido “Taylor Swifistinha” que o diga.

O contraditório entre opinião pública e a vida amorosa de Taylor é que os álbuns “19” (2008) e “21” (2011)  de Adele possuem a mesma temática: dor de cotovelo, relações complicadas, términos amorosos e, mesmo com a similaridade lírica entre as artistas, Adele nunca foi taxada de vadia, por exemplo. Temos que concordar com uma coisa: a maioria das músicas que ouvimos fala de amor nas suas melhores e piores interpretações. Por que então o peso da mão crítica não cai também sob os homens da música, sob Adele ou outras cantoras? Será que é porque enxergamos Adele como a “gordinha ressentida” da qual devemos sentir pena e Taylor a mulher magra, alta, branca e esguia a qual somos treinados para odiar ou sentir inveja? Não queria ir para o campo mais simplista do debate e associar coisas como inveja, por exemplo, mas é que, as vezes, o nível já está tão baixo que é irresistível e impossível na descer até lá. Assim, a conclusão bem grosseira que tiramos é a de que há certo toque de machismo em torno do ódio direcionado à Taylor Swift. Um machismo seletivo.

Como forma bem sucedida de capitalização, Taylor escreveu “Blank Space” single do disco “1989” (2014) onde ela imprime em música e vídeo a forma como a mídia e os fãs de música a enxergam. “Bad Blood”, canção do mesmo álbum, seria endereçada a Katy Perry como uma forma de resposta a toda uma confusão envolvendo turnês e dançarinos e o lançamento do videoclipe passou uma segunda mão na pintura de “jogadora de shade” que foi iniciada em “Blank Space”.  Neste quesito a crítica também engrossa seu discurso moralizante em relação à artista que “não deveria jogar mulher contra mulher” e que provavelmente também não pode escrever canções para responder o que Swift considera como ofensa ou colocar eventuais mágoas para fora botando em prática a psiconeuroimunologia.  Ao meu ver, o clipe de “Bad Blood” (que eu, sinceramente, acho de péssimo gosto estético) não trata de gêneros,  sororidade ou feminismo, mas da visão da artista sobre uma suposta ausência de caráter de alguém que, por capricho do destino, também é uma mulher.

Taylor Swift não é uma santa e ninguém, até por autoproteção, deve ser um exemplo de benevolência e ingenuidade dentro da música pop.

Com isso quero dizer que vamos nos voltar contra alguém sempre que acharmos que devemos. Você que me lê levaria em consideração o gênero de alguém se essa mesma pessoa fizesse algo que você entendesse como ruim contra sua pessoa, sua família ou alguém que você ama? Pode ser fácil responder que sim fora do calor do momento, mas todos somos humanos e sentimos raiva, rancor, ódio e toda sorte de emoções e sentimentos.  Talvez ao mostrar nossa pior face que não gostamos de ver, Taylor nos cause repulsa, já respondendo a questão inicial. A menos que você seja um monge tibetano (e nem eles, acho) ou Jesus Cristo, ainda não é possível suprimir totalmente nosso lado obscuro e as redes sociais (sempre elas) frequentemente estão aí para dar voz a nossos demônios interiores. Mandamos indireta no Twitter e Facebook, sentimos inveja de nossos amigos no Instagram quando eles aparecem felizes nas fotos e falamos mal de quem não gostamos, porém, a diferença entre a gente e Swift é que ela transforma tudo isso em dinheiro, tornando as sombras operárias de uma fábrica muito rentável.

Melancolia e Cultura Midiática Parte I: A Estética Melancólica

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O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco. 


A tentativa de definição de uma estética melancólica que pode ser aplicada dentro de uma análise direcionada para videoclipes parte do uso das representações imagéticas deste estado emocional na pintura, fotografia e nas correntes barrocas e românticas, precursoras e principais expoentes desta estética. Mas o que é a melancolia? Obviamente, antes de representar materialmente a abstração do sentimento, o homem sentiu na pele a manifestação da melancolia. Assim, entendendo inicialmente do que se trata este estado humano, é possível situar como a performance melancólica do corpo pode ser representada através das imagens, como a música ganhou forma performatizada dentro de um clipe musical. O intuito aqui não é o de embarcar em conceitos vindos da psicologia nem da psiquiatria, mas criar um ponto de partida para discorrer sobre a estética da melancolia: do grego, mélas – negro e cholé – bílis.

Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da autoestima está ausente no luto; afora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo — na medida em que este não evoca esse alguém —, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrição do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses (FREUD, 1917, informação eletrônica).

A partir de Freud[1] (1917), tem-se uma ideia do que caracteriza a melancolia num sentido, digamos, puro, num indivíduo e consequentemente dá luz para entender como o estado melancólico se materializa no corpo performático. Assim, inicialmente, traduz-se como uma representação melancólica, corpos que sibilam o desânimo, a apatia em relação ao mundo e a tristeza diante da câmera através da dinâmica facial e gestual. Também pode-se inferir questões como a raiva e descontentamento como produtos de um estado reflexivo.

Não há no melancólico, por tanto, a necessidade da perda para então entrar em estado de luto. Existe certa apatia em menor grau em relação aos estímulos agradáveis, o desânimo para o que antes era interessante. “Tem gosto de cinza”, diz Justine ao colocar na boca um pedaço de um de seu pratos preferido no filme Melancolia (2011) do cineasta Lars Von Trier.

A melancolia foi considerada como uma doença por Hipócrates (460- 377 a.C),  pai da medicina. Para ele o melancólico é portador de algo “como um estado de tristeza e medo de longa duração” (GINSZBURG e SCLIAR apud TEIXEIRA, 2005, p. 44). É importante destacar que, hoje em dia, a medicina considera diferenças entre a depressão e a melancolia. O depressivo está doente, em geral incapacitado de realizar a maioria das atividades de que gosta. Provavelmente, se um artista estiver em depressão, assim como um indivíduo que tem outro tipo de profissão, ele não conseguiria realizar o próprio trabalho. A melancolia é um estado reflexivo, não provoca uma dor tão dilacerante quanto a que a depressão pode trazer. Não descartamos assim, a possibilidade de um artista depressivo, em momentos de melhora da doença, poder produzir algum material. Ressaltamos também que há a possibilidade do compositor de expor artisticamente as experiências obtidas de um estado depressivo após a cura da doença.

Hipócrates considera duas formas de melancolia: a endógena, aquela que aparece sem motivo aparente; e a exógena, que surge em resultado de um trauma externo. Nas palavras de Scliar (2003), “A melancolia, sintetizou o ‘pai da medicina’, é a perda do amor pela vida, uma situação na qual a pessoa aspira à morte como se fosse uma bênção.” (p.70). É por meio da “teoria dos humores” que Hipócrates explica a melancolia. O temperamento dependia do equilíbrio de quatro humores básicos no corpo – sangue, bílis amarela, bílis negra e a linfa. O acúmulo de algum dos elementos dos humores resultava no predomínio de determinado temperamento. A bílis negra representava o outono e, como a terra, era fria e seca, tornando-a hostil à vida e podendo ocasionar a melancolia, uma doença resultante de seu acúmulo no baço (TEIXEIRA, 2004, p. 44).

Na estética, campo que nos interessa dentro deste trabalho, evocamos o ideal das correntes barrocas e românticas, linhas que perpassam até hoje elementos imagéticos dentro da música como é perceptível nas subdivisões do rock como o punk, nos góticos e, recentemente, nos emos[2]. A imagética está alocada na maquiagem carregada tanto para os homens como para as mulheres, no contraste da pele branca e dos cabelos pretos, nas roupas escuras, no modo como adeptos destes segmentos enxergam o mundo – na maioria das vezes um lugar feio, de poucos prazeres.  Há muito preto, muita sombra e há o branco também como símbolo estéreo diante do soturno:

A linhagem dos melancólicos se estende modernamente, desde os príncipes e cortesãos do teatro barroco, passa pelos poetas ultrarromânticos, pelos dândis decadentistas, pelos aristocratas neo-barrocos sem poder, e continua até os punks góticos. A ênfase na melancolia contemporânea, a partir do Neo-Barroco, que tem suas raízes nos anos 50, deve ser entendida como uma espécie de acerto de contas geracionais com a segunda metade dos anos 70 e início dos anos 80 deste século. Se não se trata de traçar uma gênese da melancolia, a preocupação com a busca de uma tradição melancólica é fundamental para redimensionar estes anos de dispersão e ceticismo, pós-utópicos, pós-punks, pós-vanquardistas, enfim, pós- modernos. O diálogo com a melancolia barroca vai além da simples reafirmação da desilusão, da constatação de perdas, ele visa dar uma espessura e estatura históricas a um período em geral subestimado quando contraposto aos anos 60 (LOPES, 97, p. 11).

Assim, podemos estabelecer uma relação próxima entre as artes clássicas e os artistas da cultura pop atual que cultivam o que Lopes (1997) chama de “tradição melancólica”. Assim como a felicidade momentânea, a melancolia nunca irá desaparecer da condição humana e para cada ser feliz, sempre haverá outro melancólico.  É como se através das eras a melancolia se reinventasse, afinal o estado melancólico e as necessidades reflexivas são características inerentes ao ser humano que usa a arte como meio de expressão ou de fuga.


[1] É possível encontrar o texto completo da obra “Luto e Melancolia” (1917) em páginas não numeradas disponível na internet. A obra citada está disponível em <https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf > Acesso em 25. Dez. 2014.

[2] Gênero musical dissidente do punk que se popularizou no Brasil entre os anos de 2003 e 2006. Entre as bandas mais influentes dentro da cena pode-se destacar: Fall Out Boy, Simple Plan, AFI, The Used e My Chemical Romance.

 


Referências na ordem em que aparecem no texto

FREUD, Sigmund. “Luto e Melancolia”. 1917 Disponível em < https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf&gt; Acesso em 25. Dez. 2014.

TEIXEIRA, Marco Antonio Rotta. Melancolia e depressão: um resgate histórico e conceitual na psicanálise e na psiquiatria. Revista de Psicologia da UNESP, 4(1), 2005. Disponível em < http://www2.assis.unesp.br/revpsico/index.php/revista/article/viewFile/31/57&gt; Acesso em 11 Jan. 2015.

LOPES, Denilson. Nós os mortos. Rio de Janeiro. Viveiros de Castro Editora Ltda. 1999.

Gestualidade, voz e cenário em Lana Del Rey e Lady Gaga: o corpo melancólico

The Weinstein Company Pre-Oscar Dinner presented in partnership with Chopard, DeLeon Tequila, FIJI Water, and Lexus at the Montage, Los Angeles, America - 27 Feb 2016

O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco,


Cada faixa musical está inserida num contexto maior, o de gênero musical. Assim, as expressões corporais que decorrem de uma canção, são atreladas a uma instância genérica. Para ficar claro, toma-se como exemplo o público de heavy metal que nos shows pulam, batem cabeça e gritam as letras das canções. Ao contrário dos roqueiros, aqueles que frequentam shows de funk geralmente rebolam, dançam uns com os outros e até tem uma coreografia para as músicas que são tocadas. Desta forma, um videoclipe pode aderir as corporalidades de gênero e vice-versa.

Num show de Lady Gaga, ou mesmo em vídeos de fã, é comum a encenação da coreografia dos videoclipes, já quando se trata de Lana Del Rey, podemos comparar a um show de MPB onde não vemos coreografias, porém mesmo com o corpo parado o público responde aos impulsos sonoros da canção. Chorar ao ouvir uma múaica, o olhar atento ao artista, mover-se de um lado para o outro também são questões que devemos levar em consideração no campo das gestualidades.

Mesmo com o ritmo dançante característico da musicalidade de Lady Gaga, nas performances da artista ao vivo, a cantora chora, se emociona ao falar com os fãs e se vale de muitos elementos da teatralidade, aparecendo ensanguentada, jogando-se no chão ou fazendo do próprio show uma espécie de musical que vai do alegre ao muito triste. Já quando falamos de Lana Del Rey, percebemos a corporalidade da artista principalmente nas suas expressões faciais. Muitas vezes o olhar parece perdido, a cantora se move lentamente e passeia pela contemplação e pela sexualidade, levantando o vestido e rebolando até o chão e, em algumas vezes, flertando com um dos músicos da banda. Assim, o corpo responde minimamente a música e no videoclipe não seria diferente.

Na dinâmica gestual, inclui-se também a oralidade, visto que a voz de uma artista também transmite emoções, identifica uma idade, sotaques, trazendo a tona uma marca que possui uma história. Desta forma, é possível identificar nas canções particularidades biográficas do artista em questão mesmo que a faixa musical não tenha sido de autoria do intérprete. Assim, concluímos que o ato de cantar se relaciona com a autenticidade do músico que deixa transparecer sua vida durante a performance quer ele esteja apresentando uma composição própria ou de terceiros:

O primeiro ponto generalizante que podemos tomar na apreensão da voz na cultura pop é que ouvimos expressões pessoais dos cantores – mesmo, talvez especialmente, quando eles não estão cantando suas próprias canções- de um modo que um cantor clássico, até uma estrela dramática e “trágica” como Maria Callas, não faz. [grifo do autor] (FRITH apud SOARES, 2013, p.163).

Desta forma, cantar não diz respeito a apenas impelir sons, mas ao um conjunto de voz, gestos faciais e corporais:

A discussão em torno da forma com que podemos problematizar a questão da voz no videoclipe pode se delinear na forma com que o clipe, por exemplo, iconiza esta voz do artista protagonista do audiovisual. É de fundamental relevância classificar a voz de quem canta e ver de que forma os aparados midiáticos sintetizam imageticamente esta voz. Gritos, sussurros, especificidades vocais podem ser configurados imageticamente através de movimentações de câmera, recursos de edição ou registros de gestuais do artista (SOARES, 2013, p. 165).

Pelo exposto, Gaga e Del Rey possuem características vocais que hora se aproximam e hora se distanciam. Enquanto Lady Gaga possui um voz, digamos, mais “para fora”, Lana aparece com algo internalizado, intimista. Quanto as variações de tom, ambas passeiam entre o grave e o agudo em boa parte de suas produções, tendo demarcado territórios de tal forma que é possível reconhecer uma música mais aguda ou grave de ambas as partes. Há uma tensão permanente em Del Rey, uma melancolia reverberante enquanto em Gaga notamos um certo desespero gritado, como alguém que está agonizando de dor. Parece-nos que Lana canta para si, só que faz isso de forma a deixar que os outros escutem e essa introspecção é visível no modo como ela dubla nos vídeos, sempre com um gestual lento e contemplativo o que também é levado para os palcos. Por outro lado, Gaga parece querer exprimir sua dor para o mundo e faz isso aliando voz a coreografias marcadas: ela canta e move-se de tal forma a querer que alguém chegue, acabando assim com um estado de desconforto.

A essas demarcações vocais podemos atribuir o conceito de “estetização vocal” visto que a forma como um artista canta uma música pode ser resultado da construção de uma imagem. Se tomarmos as características elencadas anteriormente, podemos dizer que estamos diante de duas personagens: uma lânguida e intimista e a outra teatral e explosiva. Assim caracterizadas e descritas, não é necessário que neste parágrafo seja dito a quem pertence a languidez e a explosividade, por exemplo. Não podemos ignorar também o caráter biográfico nas personas artísticas visto que a atenção deve estar voltada para a história contada por aqueles personagens que na maior parte das vezes serve como canal para disseminar a arte.

A musicalidade de ambas – voz e corpo, aparece ambientada em espaços e paisagens distintas. É preciso salientar primeiro que assim como a performance, a canção também traz cenários inscrito. Ao ambiente em que um artista performatiza uma música em um clipe atribuímos o conceito de “cenário”. Mais uma vez nos vemos atrelados a questões de gênero musical. Assim como foi dito nas inferências sobre gestualidade, os espaços onde a música está alocada dentro de um clipe dizem muito do gênero ao qual pertence a canção. Importante ressaltar que quando falamos em ambiente e cenário não estamos nos referindo necessariamente e somente a espaços físicos mas também as paisagens que são evocadas na mente de quem escuta uma faixa musical.

Se pensarmos no hip hop, por exemplo, a audição de uma canção deste gênero pode nos remeter a um contexto espacial urbano de periferia, dos becos e ruas do Brooklyn. Por outro lado também podemos criar novos ambientes baseados ou não nas nossas memórias e pensamentos mais oníricos. Interessante notar que alguns tipos musicais estão praticamente indissociados da questão de cenário fazendo com que praticamente, canção e espacialidade se completem. Executar Vassourinhas, por exemplo, no meio do ano pode gerar um certo estranhamento em relação a canção visto que não é época de carnaval, que não existem blocos na rua nem o ar empachado – para os que não gostam, ou libertador e de alegria – para os que gostam de carnaval.

Quando a articulação de espaços físicos perceptíveis no mundo real em videoclipes, é notada uma estratégia de endereçamento do produto videoclipe. Assim, ambientar uma canção de hip hop em ruas do Brooklyn, tomando base o exemplo que já foi dado “é antes uma estratégia de endereçamento do próprio artista e a construção de uma dinâmica de autenticidade” (SOARES, 2013, p.171)

Apropriando-se dos conceitos e trazendo para os objetos em questão, é perceptível e será comprovado na análise de videoclipes (aqui e aqui), uma junção entre espaços geográficos reais e ambientes oníricos. O fato é que, Lady Gaga assume a personagem por mais tempo do que Lana assume, isto é, visto pelas roupas da artista concluímos que ela (Gaga) tenta juntar um mundo de sonhos com a realidade até mesmo fora dos videoclipes e das performances nos shows.  Se nos dirigirmos para a composição do cenário em Gaga vemos espaços futuristas, abertos e preenchidos com corpos que dançam e percorrem todo o lugar. São em geral e sobretudo nos videoclipes vindos dos trabalhos mais recentes da artista, ambientes de terrores que bebem das fontes do rock.

Os cenários de Lana Del Rey estão mais próximos da esfera do geograficamente possível. Ambientes que são reconhecíveis dentro do mundo real adornados com uma estética retrô vinda principalmente da direção de arte e da pós-produção dos clipes. A legitimação da cantora como uma artista indie-pop e que tem uma grande influência da surf-music nos leva para litorais, remetendo ao mar e lugares paradisíacos.

 


SOARES, Thiago. A Estética do Videoclipe. João Pessoa. Editora da UFPB, 2013.

[RESENHA] Tears on the dance floor: O After Laughter do Paramore e saúde mental

From left: Taylor York, Hayley Williams and Zac Farro of Paramore, in Nashville, Tenn.

“Here in the darkness i know myself” diz Amy Lee em uma das linhas da faixa “Lithium” pertencente ao “The Open Door”, álbum do Evanescence lançado em 2006. Dez anos depois, ainda lembro dessas palavras porque elas fazem todo sentido do mundo e eu nunca conheci ninguém que tenha se reerguido durante momentos de felicidade ou quando tudo estava bem. É sempre na escuridão que a gente pode se conhecer melhor e ninguém pode me convencer do contrário. Se a natureza mantém a depressão, a tristeza e a melancolia em nós é, certamente, porque há utilidade.

Durante os últimos anos (talvez eu esteja sendo injusto, vai) aprendi a expor menos meus sentimentos negativos para os outros porque, na minha concepção, os “amigos” que eu tinha ao meu redor era evoluídos demais, sabiam lidar com os próprios problemas, fugiam de “pessoas negativas” como eu, diziam que “eu tinha que me valorizar”, “que a guerra que eu estava vivendo era só minha” e eu permanecia como cego em tiroteio. Bom, talvez eles estivessem todos certos mesmo e eu levei tão a sério o fato da “guerra ser só minha” que eu decidi seguir nela, advinha, sozinho mesmo. Eu não queria mais ser um peso na vida de ninguém e não queria mais me sentir culpado por ser um estorvo frágil para os outros ou viver num grupo onde eu causava problemas e meus defeitos eram mais desenvolvidos do que as minhas qualidades.

Minha conexão com o “After Laughter” veio daí, de não saber como lidar com paramore-after-laughter-2017-2480x2480o mundo, veio desse momento onde eu não tenho certeza sobre o futuro, onde eu me encontro perdido, procrastinando, frustrado, sem saber em quem confiar e odiando todas escolhas que fiz até agora. Que peso, né?  Esse disco me diz que eu não estou só nisso e que existem outras pessoas lutando as mesmas batalhas diariamente muitas vezes sem nenhum apoio. As campanhas dos órgãos competentes sempre enfatizam a procura por profissionais de saúde mental no caso de algum problema que esteja sendo difícil para um indivíduo encontrar uma solução sozinho. Não querendo desmerecer o quanto um psicólogo ou psiquiatra se esforçou para chegar onde está, mas o acompanhamento especializado desses profissionais no nosso país ainda é muito caro e isso se deve também ao fato de que as feridas emocionais e a subjetividade dessas questões são frequentemente confundidas com preguiça ou frescura na nossa sociedade. As pessoas se compadecem muito mais com uma doença que precise de uma cirurgia para a cura do que com a ansiedade, por exemplo. No entanto, se você pode bancar um tratamento psicológico, não exite em ir. Pode ser difícil marcar a consulta e comparecer de fato, mas se você consegue vencer este primeiro obstáculo, pode ter certeza do grande passo que está dando.

O que eu mais gosto no “After Laughter” é que ele permite que a gente sinta coisas ruins. Nós não precisamos ser positivos o tempo todo, engolindo sapos, varrendo emoções pra debaixo do tapete e se culpando porque “mágoa, ódio e raiva causam câncer”. E o mais comum é que a gente vá jogando essa tranqueira emocional pra um buraco fundo e escuro dentro da gente porque não queremos ser uma “pessoa tóxica” para os outros mas, com isso, acabamos virando uma pessoa tóxica pra nós mesmos.

Se os seus amigos ou a pessoa que você gosta se afastam de você por algum problema que você esteja passando, é aquele clichê, né? Eles nunca foram seus amigos e essa pessoa nunca gostou de você.  Ah, e não estou dizendo pra ninguém ser babá de ninguém, apenas dar o mínimo de suporte possível. Low key, no pressure, just hang with me and my weather

O “After Laughter” nos ensina a abraçar nossa tristeza, a levá-la como algo que faz parte da nossa existência e não como uma bola de ferro sob nossos ombros. O disco não é uma apologia, não faz uma ode e nem glamoriza a depressão, mas é sim uma forma de encararmos a nós mesmos e o que sentimos.

1 – Hard times

“Hard Times” é um exemplo do motivo pelo qual defendo que devemos sempre prestar atenção no que o artista está dizendo na letra das músicas. Se você não tem um nível avançado de inglês, se não consegue entender o que o artista estrangeiro diz numa língua que não é a sua, é interessante que você vá atrás e procure em sites como o Vagalume que oferece traduções melhores que o Letras Terra. Nem sempre uma canção triste vem com melodias indutoras de um estado de prostração.

Quem acha Adele o maior ícone da música pop deprê certamente não escutou as músicas de Lady Gaga, por exemplo, que são tão tristes quanto ou até mais. É claro que as duas tem estilos muitos diferentes, só que Gaga, assim como o Paramore em “Hard Times”, disfarça a dor com batidas que nos fazem dançar, clipes coloridos, coreografados,  com diversão e tudo o que lembra um estado de espírito feliz. Esse comportamento dos artistas em relação à própria música e a materialização da imagem da canção no videoclipe liga-se diretamente com a forma que agimos na sociedade que não admite que a gente exponha nossas fraquezas, assim, vestimos uma capa colorida e saímos por aí sorrindo mesmo com todo o vazio por dentro.

Por outro lado, os compositores podem estar mais interessados no arranjo, na quantidade de batidas da canção, que pode gerar maior empatia e consequentemente um maior retorno financeiro, além disso, o contraponto entre letra e melodia também torna a canção bilateral fazendo com que o ouvinte possa consumi-la em qualquer estado de espírito.

“Hard Times” é uma grande tiração de sarro com os problemas diários que fazem a gente se questionar se estamos mesmo no caminho certo.

2 – Rose-Colored Boy

As vezes pode ser muito chato quando estamos tristes e alguém possuído pelo espírito de Buda chega e diz pra gente que temos que “olhar para as coisas boas da vida”, que “não somos uma causa perdida” e que “tudo vai passar”. Será que essas pessoas sabem que não há profundidade nenhuma quando elas tentam dar esse tipo de ajuda e que a boa intenção delas pode piorar ainda mais as coisas? “Rose-Colored Boy” conversa com a gente a partir da perspectiva de quem está sofrendo com algum tipo de ansiedade, tristeza ou, mais grave, uma depressão.

Temos que assumir que nós não somos responsáveis por mudar o outro e 99% do que a gente diz pra tentar reerguer alguém pode ser em vão, por isso, a melhor coisa que podemos fazer é apenas ouvir e fazer companhia sem julgamentos e respeitando o tempo da outra pessoa. Interessante que a faixa faz referência direta a “Hard Times” logo no início: a “little rain cloud” agora retorna  e retorna não apenas como uma nuvem, mas um temporal quando Hayley utiliza a palavra “weather” na introdução de “Rose-Colored Boy”

3 – Told you so

A melhor palavra para definir “Told You So” é orgulho. E o orgulho nessa canção vem das duas partes, tanto de quem canta como pra quem a música é endereçada. Dizer  “odeio dizer que te avisei” e acusar que “eles adoram dizer que me avisaram” coloca respectivamente o eu lírico em posição de superioridade e de julgamento do outro ao mesmo tempo. Na verdade, ambas as partes amam estar certas de que, por exemplo, uma atitude futura do outro poderia dar errado e que no final acabou realmente dando. No entanto, quem diz “i hate to say i told you so”  tenta forçar, como dito anteriormente, uma certa superioridade: você ama dizer que me avisou, enquanto eu, mais evoluída, odeio falar isso porque sou melhor do que você. Muito provavelmente Hayley Williams e Taylor York, compositores de “Told You So”, se uniram contra alguém nessa canção e não contra alguém comum, mas alguém igual a eles.

4 – Forgiveness

As pessoas entram na nossa vida e, as vezes, acabam saindo dela deixando uma ferida muito grande aberta. Pedir desculpas é algo nobre do ser humano, mas só isso pode não bastar. Na letra, é repetido um ditado (pode ser chamado assim?) que diz que “perdoar não é esquecer”. Ainda tenho dificuldades em compreender isso. É possível dar o nosso perdão genuíno a alguém e apagar da nossa memória tudo de ruim que ela nos fez? Querendo ou não, ainda não e possível deletar do nosso cérebro situações que nos marcaram muito. “Forgiveness”  é uma forma de mostrar humanidade, mostrar que a gente não é um robô e que podemos sim não querer perdoar alguém e que não precisamos nos culpar por isso, afinal, se for para perdoar e sempre que puder jogar o passado na cara do outro, é melhor guardar seu perdão.

5 – Fake Happy

Nem seria preciso fazer uma resenha dessa porque o álbum é tão literal e as metáforas são tão inteligíveis que o óbvio não precisar ser dito. No entanto, trazendo para as entrelinhas da canção, “Fake Happy” fala que nós precisamos prestar mais atenção naquela pessoa próxima que a gente sabe que está enfrentando algum problema e que se esconde demais para não demonstrar fraqueza. Será que ela está lidando bem de fato com a situação? Será que ela não precisa conversar ou será que ela está fazendo um “ótimo trabalho em fazer com que a gente acredite que ela está bem”?

6 – 26

Todas as faixas anteriores a “26” são duais, uma briga do eu lírico com a negatividade: letras tristes e batidas alegres. Só que nesta faixa, tudo vem a baixo e a vulnerabilidade vem à tona. O interessante é que mesmo com melodia e letra num tom melancólico, “26” se mostra com uma das (a outra é só, e somente só “Grudges”) canções mais otimista do disco quando é dito: “segure-se na esperança, se você tem, não largue ela por ninguém”.

7 – Pool

“Pool” nos trás de volta ao funky com uma descrição completa de um relacionamento amoroso. Fala-se em “segundas chances” e logo vem à nossa cabeça os famigerados chifres né, não? Na canção, ele é “a onda que ela não consegue domar” e que se ela sobreviver a um mar tão agitado, ela vai “mergulhar de volta” porque “não gosta de desistir”. É óbvio dizer isso, mas relacionamentos são muito complicados. Quando vale a pena perdoar alguém? Quando é melhor desistir? E se tratando de uma pessoa com um poder tão grande sob nós (‘cause no one breaks my heart like you) como perceber que não estamos nos deixando levar? Essa canção me traz muitas perguntas porque ela é uma grande dúvida pra mim.

8 – Grudges

Guardar rancor toma muito da nossa energia e, se você percebe que a outra pessoa vale a pena, é melhor tentar parar de se perguntar e pensar porque deu tudo errado antes e seguir em frente. Se ambos estão com vontade de deixar o passado no passado, o que impede de tentar?

9 – Caught in The Middle

“Cught in The Middle” é tão direta que chega a assustar. “Não posso pensar em envelhecer porque isso me faz querer morrer”, tipo, what? Assusta porque se você está passando ou já passou pela crise dos 20 e poucos anos e vê todos os seus amigos casando, tendo filhos e comprando carros, não há como fugir de se sentir velho. Mas será que é motivo suficiente para querer morrer? No caso, esse desejo de morte na canção é literal? Quando as matérias recentes feitas com Hayley Williams relatam uma certa luta contra depressão, acredite, não é brincadeira e o “After Laughter” comprova isso. Ao passar por um período sombrio nas nossas vidas, é natural que fiquemos presos em um lugar que não é nem tanto pra um lado e nem tanto para o outro, mas em cima do muro morrendo de medo e não é tão simples sair de lá. A grande mensagem (quase um mantra) dessa faixa é quando é dito “eu não preciso de ajuda, posso me sabotar sozinha” e nos envolve na seguinte reflexão: se nós mesmo já nos colocamos para baixo, que tal ficarmos apenas com essas vozes autodestrutivas e esquecer que o mundo nos derruba o tempo todo?

10 – Idle Worship

Essa faixa é aquela que, ao começar, você não dá nada. Demorei a parar e escutá-la, pois o começo não me agradava, mas no momento que dei uma chance e a canção foi evoluindo, ela se tornou mais uma boa canção do disco, apesar de não ser uma das minhas preferidas.  “Idle Worship” nos diz que o Paramore não vai nos salvar, afinal, eles só podem nos dar uma forcinha com a música e que a adoração às pessoas famosas não é algo saudável. De youtuber a Lady Gaga, todos são humanos e imperfeitos e o pedestal que colocamos os artistas é algo perigoso e beira ao surreal.

11 – No Friend

A canção mais estranha do Paramore, certamente. O “After Laughter” introduz na banda alguns elementos misteriosos, como o “Carlos” no final de “Fake Happy”. Sendo sincero, esses sussurros me dão muita agonia e sempre passo essa música que mais parece um interlúdio, logo, vou ficar devendo essa.

12 – Tell Me How

“Tell Me How” é a minha queridinha. É suave, dolorida, vulnerável. Ela representa o cansaço pra recomeçar, o se importar com o outro que insiste em responder com  silêncio e indiferença. Em determinados momentos ficar calado não diz tanto assim e a gente realmente precisa falar senão há um risco muito grande da bagunça virar um pandemônio sem freio.

O “After Laughter” é o melhor disco que eu ouvi nos últimos 10 anos desde o “The Black Parade” do My Chemical Romance. Não há, claro, uma conexão entre os dois e esta é apenas uma referência para a minha lista de melhores álbuns. Só quem estiver na mesma sintonia do “After Laughter”  vai compreendê-lo e eu consigo me ver inteiramente nele. Dançar em meio aos meus problemas tem sido terapêutico e através das faixas a sensação de solidão é amenizada. Assim como o Paramore sobreviveu e nos deu uma obra tão linda, espero que você que me lê supere o que quer que esteja passando neste momento. Uma coisa é certa: nada dura para sempre, nem o sofrimento. Sinta-se abraçado.

O amadurecimento poético de Lana Del Rey em “Lust For Life”

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Queria estar morta é o meme mais famoso de Lana Del Rey. Ele surgiu após uma entrevista da artista para o jornal The Guardian em 2014. “E não há remédio para as lembranças. Seu rosto é como uma melodia, não sairá da minha cabeça. Sua alma está me assombrando e me dizendo que tudo está bem, mas eu queria estar morta” diz a letra de “Dark Paradise” pertencente ao disco Born To Die (2012).  O desejo de morte de Lana é algo que percorre sua obra desde o início da carreira, o que é perceptível no título do disco de estreia, traduzido em português como “nascemos para morrer”, apesar da morte encenada ser simbólica e estar ligada muito mais ao fim de relacionamentos, a pequenas mortes internas acumuladas pela vida, do que a perda fisiológica da própria vida. Engraçado que após falar que desejava estar morta na entrevista, o trecho de “Dark Paradise” parece fazer mais sentindo e chega até a nos assustar se fomos refletir sobre o quão literal aquela canção  pode ser.

Em “Blue Jeans”, nos deparamos com a visão pessimista do amor que, segundo a letra, é um sentimento ruim e que machuca. “National Anthem” instaura uma relação conflituosa e nos apresenta os problemas de um romance jetset, sem muitas regras e, como sempre, sem futuro. O clipe de “National Anthem” também não ficou longe da proposta da canção, mostrando o suposto triângulo amoroso composto por Jackie Onassis, John F. Kennedy e Marilyn Monroe. O videoclipe ainda se aprofunda em questões políticas, mostrando um John Kennedy negro insinuando um apoio da artista ao ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.  O otimismo de Lana em “Born To Die” é bem discreto e aparece em “Summertime Sadness”, onde ela se mostra disposta a continuar mesmo que a pessoa que ela ama eventualmente vá embora.  Poderia seguir por “Ultraviolence” e o seu “ele me bateu e pareceu um beijo” ou para o “Honeymoon” quando Lana diz que “está indo mais fundo e mais fundo, ficando sombria e mais sombria, procurando por amor em todos os lugares errados”, em “The Blackest Days”, mas todos já entenderam que Lana não é das artistas mais happy shine people da nossa era. No entanto, ao lançar “Love”, primeiro single do disco “Lust For Life”, foi possível notar uma Lana Del Rey diferente, madura, não menos apaixonada e intensa, mas com uma visão pacífica do amor. No dia 19 de abril, a faixa título do disco chegou a todas as plataformas de mídia e a canção seguiu a mesma linha vivaz de “Love”.

“Lust For Life” é uma balada em colaboração com o gênio da melancolia erótica, The Weeknd, cuja voz casa perfeitamente com a de Del Rey. Para mim, The Weeknd é a versão masculina de Lana, não só pelo espírito mas pelas influências do R&B e hip hop. Tanto a canção como o trailer do disco, fazem referência a Peg Entwistle (foto abaixo), atriz de Hollywood que cometeu suicídio pulando da letra H do sinal de Hollywood em setembro de 1932 e que hoje é conhecida, segundo a lenda, como “o fantasma da letra H” e  daí você já entende o motivo de Lana aparecer transparente no album trailer.

Essa correlação do disco com uma história trágica atrelada a iconografia hollywoodiana a Peg-Entwistlequal Lana sempre teve uma obsessão, dá muito pano para manga da artista, mas o significado dos 7 planetas, dos elementos que entram na panela, do telefone flutuando e de todos os outras coisas colocadas de propósito no vídeo, são tema pra uma outro texto. O que interessa aqui é que Lana entrou numa nova era, digamos, mais feliz e motivacional, a contragosto de alguns fãs que preferem a artista mais sombria como no início da carreira e sem o largo sorriso da capa do próximo disco.  Não, Lana não vai entrar na era “Firework” ou “Born This Way” , até porque, como dito anteriormente, apesar do conceito mais “de bem com a vida”, Del Rey tem um mondo muito particular de demonstrar a própria felicidade e a história de Peg Entwistle não nos deixa mentir sobre isso. Além disso, “Lust For Life” também é o título de um filme da década de 50 que conta a história de  Vincent Van Gogh, sua paixão pela pintura e, adivinha só, sua vida cheia de de relacionamentos problemáticos. Sounds familiar. 

Se em “Young and Beautiful”, só meados de julho possuíam noites quentes de verão, em “Lust For Life”, o mês de julho da independência americana agora dura para sempre. Se em “Ride” legal mesmo era viver rápido e morrer jovem, agora não parece mais certo que os bons percam a vida tão cedo.  Se em “Summertime Sadness” Lana implorava para que a pessoa que ela ama a beijasse antes de partir, em “Lust For Life”, essa pessoa parece ter retornado mais interessante do que nunca. Se antes reinava o fatalismo do “nascer para morrer”, agora a paixão pela vida sobressai e não há mais noites, apenas um céu azul eterno. Se antes o amor não era o bastante e a estrada ficava difícil de caminhar, agora há o entendimento de que somos os mestres de nosso próprio destino, capitães de nossas almas e não há como fugir disso.

Amy Lee – Speak To Me

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A maternidade muda uma mulher de uma forma que os homens nunca vão saber como é. O formato do rosto de uma mãe recente se altera, fica sereno, apesar das longas noites sem dormir com o bebê chorando. Não é algo que possa ser expresso em palavras, mas quem tem os olhos treinados sabe o que estou falando.  Não estou dizendo aqui que toda mulher deve engravidar para se tornar divina, etérea ou dotada de uma capacidade ou dom especial, apesar de eu achar que toda boa mãe carrega algo a mais dentro do coração. Também não estou enaltecendo os laços sanguíneos e menosprezando a adoção, não, porque ser mãe é mais do que carne. Falo de Ser mãe, capital S. Agora, só pra eu terminar de me explicar antes de começar a análise: se você não quiser ter filhos, tá tudo bem e você não é menos por isso.

Conheci o Evanescence aos 15 anos, hoje tenho 25. Na época do colégio, “Going Under”, “Bring Me To Live”, “Everybody’s Fool”, “Call Me When You’re Sober”, “Lithium”, “Good Enough” gritavam acusações, pedidos de socorro, desilusões amorosas e autossabotagem. Uma voz que parecia pedir socorro e que agradava aos nossos ouvidos rebeldes com a dor transformada em música. Saudades daqueles tempos. Para um nostálgico, até a própria dor é lembrada com prazer.

Em “Speak To Me”, Amy Lee se acalmou, apesar da canção ser tema de Voice From The Stone, longa de suspense/terror que deve chegar aos cinemas em breve.   Já não é mais “me acorde por dentro, chame meu nome e me salve da escuridão”. Amy se coloca agora como a protetora e diz claramente para o filho: “fique calmo meu amor, eu retornarei para você. Por mais distante que você se sinta de mim, você não está sozinho. Eu sempre estarei esperando. E eu sempre estarei olhando você”. Não é mais “por favor, me perdoe, mas eu não estarei em casa de novo”, na súplica agonizante que é “Missing”. Agora é “eu sinto você empurrando tudo através de mim. Nessas paredes, eu escuto as batidas do seu coração, e nada nesse mundo pode me impedir de voltar para você”, numa clara referência à gestação e a resposta ao choro da criança. “Speak To Me” é a materialização sonora do amor verdadeiro, e entenda-se por amor verdadeiro aquele que é incondicional.

No entanto, a essência estética do clipe é mantida, só que de uma perspectiva solar, iluminada que remete à fotografia de Melancholia (2011) de Lars von Trier. O figurino medieval do videoclipe nos transporta para um conto de fadas. Amy nunca esteve tão radiante a ponto de ofuscar as joias que usa, joias, aliás, que nunca a vi usando. O clipe é interessante no sentido de perceber como as referências biográficas são diretamente colocadas em um videoclipe, como vemos nas cenas de Lee com filho. “Ao cantar uma música, trata-se de alguém cantando e “vivendo” as ações existentes na letra. É neste sentido que podemos perceber como as canções podem ser apreendidas através de leituras biográficas e, assim, estender uma reflexão sobre a “sinceridade” no cantar”. (SOARES, 2012; p. 3). É importante destacar questões icônicas da religiosidade presentes no clipe. Na sequência de imagens abaixo, convido o leitor a pensar qual famosa história é reencenada nestas tomadas específicas do videoclipe:

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Segundo o catolicismo, o anjo Gabriel vem avisar a Maria que ela seria mãe do filho de Deus. Perceba que o clipe começa em preto e branco e ganha cor após Amy ver a estátua do anjo e logo atrás do vestido longo azul, a criança aparece.  Destaco ainda os ganchos visuais da artista boiando na água, como uma referência a um eu anterior: a antiga Amy que ainda clamava para que alguém a ouvisse. A criança do clipe corre e parece levar Lee para outros ambientes que ela própria desconhece.

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Uma ansiedade residual em alguns momentos parece tomar conta da cantora que parece perdida e sozinha, mas tudo fica bem quando ela vê o menino. Nada é sobre Amy Lee nesse clipe, é tudo sobre o filho dela num cenário que parece pertencer a outro plano, dando a sensação de plenitude e que todos somos imortais de alguma forma. No final, a sequência Anjo-Amy-Criança é retomada, sendo o Anjo e Amy apresentados em preto e branco e a apenas a criança em cores com o entorno em p&b, como sendo aquele que traz a cor para o mundo de Lee. Apesar da música ser cantada sempre com ela se referindo a si ou o filho, no final percebemos que a última frase nos coloca em contato com um Nós parental: o marido de Amy não está no clipe, mas acabou sendo incluído quando ela faz, no último minuto, o seguinte pedido: “Fique calmo meu amor, Nós retornaremos pra você”.

Em “Video Games”, Lana Del Rey diz que “o mundo foi feito para dois e que a vida só vale a pena se alguém estiver amando você”. Lana pode até dizer, mas Amy Lee nos prova a veracidade dos fatos.


Referências

SOARES, Thiago. Britney Spears: O Corpo como Estratégia de Visibilidade no Videoclipe. Recife: XIV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, 2012.

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