Razão vs Emoção em “Genius” – Labirinth, Sia e Diplo (LSD) [Análise]

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Ultimamente, aqui no blog, um tema tem sido bem recorrente: música e saúde mental. Talvez isso não reflita apenas um momento particular deste autor, mas do mundo todo, por que não? Acredito que estamos tentando encontrar um sentido no caos. Além disso, é impressionante como a música pode em menos de 5 minutos e com o apoio de um videoclipe nos ensinar tanto sobre psicologia. Vejamos como isso acontece em “Genius” do trio Labirinth, Sia e Diplo (LSD).

O videoclipe se baseia nas relações entre a emoção e razão e o clima de psicodelia vai além da brincadeira com o nome da banda que, como todos devem saber, remete a um tipo de droga. Representando o campo emocional, temos Sia. Labrinth entra como a parte lógica:

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Labrinth está com os pés no chão e Sia com a cabeça nas nuvens. Enquanto morcegos aparecem em cima do cantor, Sia possui flores logo abaixo: a preocupação com mundo e um olhar mais puro e otimista (até fora da realidade) em relação a tudo o que nos cerca. Isso fica ainda mais claro na imagem logo abaixo
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O que uma pessoa que é completamente responsável, que pesa todas as medidas e que faz projeções e cálculos antes de tomar decisões pensa de alguém que é mais relaxado e que não tem tanta preocupação sobre a vida? Essa é uma excelente imagem para representar a resposta. Repare no olhar de raiva de Labirinth projetado em direção a Sia.

Sabendo disso, agora, liricamente, atente para a diferença no discurso entre essas duas partes da canção e perceba como imagem e música se alinham apesar de não parecer em um primeiro momento porque, se tratando desse clipe especificamente, quem o assiste pode ficar preso em muitas informações:

[Labrinth]

Você acha que sou idiota?
Você acha que eu sou louco de pedra, tendo você em minha mente?
Você acha que eu sou indefeso? Minha álgebra vai igualar você toda vez.
Você acha que eu estou te ligando?
Você acha que eu estou chamando seu nome todas as noites?
Garota, eu me apaixonei por você.

[Sia]

Você será meu Einstein, meu Newton.
Meu Galileu e meu Hawkings.
Rapaz, coloque essa energia no meu passo.
Coloque seu braço no meu pescoço enquanto eu estou andando.
Por favor entenda, eu me apaixonei por você.

É interessante notar que Labrinth usa palavras como “indefeso”, “álgebra”, “igualar” e Sia fala em “energia”, tem o sarcasmo de comparar a pessoa que ama com cientistas. Um quer o que o outro não tem e além do conflito mental humano entre seguir o coração e raciocinar, também podemos interpretar a dinâmica dos personagens como uma representação do mecanismo do amor: quando nos apaixonamos por alguém estamos interessados em algo que aquela pessoa possui e nós não. Por que “apenas um gênio consegue amar uma mulher como ela (Sia)?” Porque só alguém capaz de parar e analisar uma situação sem se deixar levar pelas emoções pode contrabalancear o peso de alguém que vive em um mundo dominado por emoções. Sabe-se que Sia teve problemas com álcool, abuso de outras drogas, sofreu depressão após a morte de um namorado e foi diagnosticada com transtorno bipolar, condição que também aparece não só no videoclipe mas em toda a estética do trio:

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No lado esquerdo da foto, Sia está triste. No lado direito, vemos a Sia feliz. Traçando um eixo que divide a imagem, a Sia triste olha para o chão enquanto uma parte do sorvete se desprende e cai em formato de lágrima. O lado feliz da artista olha diretamente para o doce e a posição da mão está exatamente fora do alcance de seu lado triste.  É importante lembrar que o Transtorno Bipolar vai muito além de se estar feliz ou triste. Seria impossível representar em um rosto todos os sintomas dessa condição que podem incluir agitação, agressão, comportamentos de risco, e delírio.
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Cogumelo atômico se transforma em Sia: as ciências exatas tão racionais deixam de lado a empatia. Esse trecho reflete a ausência de humanidade na ciência que, se não for usada para o bem, pode trazer graves consequências. Por outro lado, também podemos entender a sequência como símbolo das situações de limite, conceito que é mais difundido em outra condição, a Síndrome Borderline.

No entanto, também temos um terceiro personagem: Diplo. Ele aparece para podermos entender como a ausência da subjetividade e do lado inconsciente pode afetar a racionalização das coias.

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3 Ao sequestrar Sia, Labrinth fica perdido e tenta encontrá-la a qualquer custo porque é impossível viver em mundo onde só a lógica importa.
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Com Labrinth e Sia dentro de sua cabeça enorme, Diplo brilha e tem até um óculos em formato de coração. Aqui é bem sugestivo um toque de admiração de Diplo em relação aos outros integrantes. Em um campo mais amplo percebemos uma alusão ao funcionamento do ser humano quando os dois lados (Labrinth e Sia) se encontram em equilíbrio.

 

“Genius” é genial porque é maior do que os artistas e ensina muito sobre como um ser humano funciona. Certamente existem outros elementos tão ricos em significado quanto o aspecto macro que foi tratado aqui e em breve este post pode ser atualizado. A medida que assistimos, vemos ou ouvimos a arte, percebemos novos elementos não só sobre as obras, mas sobre nós mesmos.

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“Delicate”, solidão, fantasmas e exclusão do mundo: precisamos uns dos outros?

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Pelo menos uma vez na vida sentimos o desejo de desaparecer, nos esconder de todo mundo, nos matar nas redes sociais até alguém sinta nossa falta. Talvez, um dia, possamos voltar, talvez não e daí recomeçamos em um novo lugar, com uma vida nova. Ou não. Há ainda a opção de nos agarramos de um jeito tão forte ao nosso passado que acabamos condenados a vive-lo para sempre. É daí que surge a depressão, do excesso dentro de nós de coisas que se foram. A essência do videoclipe de “Delicate”, já que ele se afasta um pouco da canção mas, ainda assim, amplia o significado da letra, é aquele conceito famoso do “estar só no meio multidão” e, claro, a superexposição a qual todo artista está sujeito junto com a ausência de liberdade. “Delicate” me lembra muito o filme independente “A Ghost Story” (2017) onde a invisibilidade nos coloca, a partir de um personagem sobrenatural, sob uma nova perspectiva diante da vida, do mundo e do tempo. Se adotássemos um comportamento niilista e nos ausentássemos das obrigações sociais, se fôssemos como o fantasma representado no longa, existe uma possibilidade muito grande de passarmos a observar e contemplar as coisas como elas são e exercitar nosso poder de observar o que acontece aumentando nossa sensibilidade. No entanto, não recomendo. Pensar demais sobre a vida pode trazer angústia tornando o ar denso de ser respirado. É algo paradoxal concluir que ficar livre dos olhos da sociedade pode nos libertar e nos prender a ela. No videoclipe, Taylor, após ter se apossado de uma das relíquias da morte, age como quer, sem vergonhas e pudores, num estilo de dança moderna com clara referência a Sia, porém, há momentos de tensão onde ela parece tomada por algo que a incomoda. A cena que torna isso claro é, obviamente, a tomada final, quando a artista entra em um bar e tremendo segura o pedaço de papel mágico e procura por alguém conhecido. A sequência termina com as pessoas conseguindo enxergar Taylor e ela sorri aliviada muito provavelmente por ter encontrado os amigos. A maior mensagem que “Delicate” me passou é que, já que não podemos ser invisíveis, devemos nos esforçar para não darmos tanta importância ao que falam ou pensam sobre nós. Taylor Swift diz que se isolar, tentar se encontrar, dar um tempo de tudo e todos pode ser bom, mas tem limite. Não é que você vai aceitar uma relação tóxica porque qualquer coisa é melhor do que ficar só, mas há sérias consequências negativas no isolamento. Nossa mente é extremamente traiçoeira.

“After Laughter” e “Reputation”: álbuns do ano

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Apresentando a vocês os meus dois álbuns do ano. À direita, temos a aceitação das nossas sombras, a luta diária (que eu sempre perco) com a nossa própria mente e a ideia de que nossas emoções precisam ser sentidas e não reprimidas, pois viver do mesmo jeito que Poliana e seu “jogo do contente” é algo patológico no qual nem Eleanor Porter deve acreditar. Não há problema nenhum em sentir medo, tristeza ou raiva, afinal se Deus, a natureza, o Universo ou o que quer que você acredite permite que sintamos tudo isso, é porque há uma utilidade. A grande questão é o que fazemos com os nossas emoções. Eu, por exemplo, escrevi este texto, o Paramore fez um disco. Um trabalho que ensina linda, poética e sonoramente sobre saúde mental. Nenhum álbum falou comigo como o “After Laughter” fala, no entanto, apesar de sempre ter sido (e, com convicção, sempre vou ser) fã de Hayley Williams, Taylor York, Zac Farro e quem mais sair, for e voltar, eu espero um dia lembrar de cada letra desse disco como algo que eu era e que consegui superar ressuscitando “a parte otimista que restava de mim”. Quem sabe o pior acaba mais cedo e o melhor já está logo ali, né? Até lá vou dançar escorregando muito nas minhas lágrimas e medos. O negócio é entender que na nossa existência iremos sempre nos deparar com os momentos entre um riso e outro e que nada dura para sempre. Sejamos sinceros com o que sentimos, por favor. O mundo já demanda que usemos muitas máscaras, nem sempre encontramos quem nos entenda e todo o nosso processo pode exigir a nossa solidão.  À esquerda, temos liberdade, alguém humano com ego ferido, uma mulher apaixonada que abraçou de vez a própria sexualidade, que nos olha de queixo levantado – não por soberba – mas dizendo pra nos assumirmos e encarar a vida de frente. Esse disco faz a gente querer se apaixonar, nos hipnotiza com sintetizadores, influência da EDM music e acende nosso lado irônico. Não fujo do clichê de dizer que a velha Taylor está viva, vivinha, vivíssima só que melancolicamente sexy. Imagina alguém te dizendo numa música que quer “usar as iniciais do seu nome numa corrente no pescoço não porque você pertence a ele (a), mas porque ele (a) te conhece bem”. Amor não é amor sem ser brega e o fato de sua expressão estar em inglês, não o exime da cafonice. Imagina alguém sabendo que você “é uma bagunça” é que é essa bagunça que ele ou ela quer. Amar sem aceitar e entender aquilo que pode ser entendido e que não é abusivo no outro não é amar. Imagina perder as esperanças sobre tudo relacionado ao amor e daí alguém canta e traz de volta tudo o que você achava que tinha perdido. Desde que comecei a escutar este álbum, meu pesadelos deram lugar a sonhos que eu achava que nunca mais teria. A minha cama virou um Oasis secreto.   O “Reputation” é agridoce, afinal, pra quê escolher um lado? Ele é sede de dizer que tudo o que pensam da gente está errado e só nós sabemos das nossas dores. Tomando os dois discos como retas, o ponto onde elas se encontram se chama consciência. A mesma consciência que precisamos ter a cada minuto em relação a nós mesmos, sobre o que pensamos, sobre o que fazemos, dizemos e sentimos.

Como analisar um videoclipe?

Analisar um videoclipe não é tão complicado, visto como os fãs e a mídia conseguiram chegar a conclusões tão interessantes assistindo a “Look What You Just Made Me Do” de Taylor Swift nos últimos tempos. A análise de um videoclipe é descritiva e questionadora e não poderia ser diferente já que com o cérebro que temos é quase impossível não julgar, criticar, concluir e analisar o que além de visto é ouvido. O videoclipe é a embalagem da canção. No modelo proposto aqui não há absolutamente nenhum mistério, mas é preciso ter um certo cuidado pois como já dizia Umberto Eco, “interpretação tem limites”.  Uma metodologia que tenha o objetivo de análise deste tipo de obra audiovisual, em linhas gerais, pode ser amparada dentro do conceito utilitário na normatização de interpretação proposta por Vanoye e Goliot-Lété, mas calma, não vou transformar este post num artigo acadêmico não.  A partir disto, vamos a um passo a passo que eu utilizo nos textos que vocês leem aqui no blog. Achei mais fácil e didático colocar em tópicos e não em um “texto corrido” para que sirva de modelo para quem interessar. No final você pode chegar a conclusão de que sempre soube interpretar videoclipes e que para isto é preciso apenas responder a algumas perguntas:

  • Em que contexto histórico está inserido o videoclipe? O que vemos e ouvimos dentro do campo artístico pode está refletindo o que acontece no mundo. Recentemente a Rolling Stone fez uma matéria muito interessante relacionando as batidas lentas das músicas atuais com algumas questões políticas. No entanto, o social também pode estar ausente da obra e não há a obrigação em relacionar o trabalho com o que está acontecendo no planeta, mas é sempre bom lembrar que o todo acaba nos afetando de alguma forma.
  • Após assistir ao clipe, na sua concepção, sobre o que a obra fala e por que o videoclipe foi feito daquela forma do primeiro ao último segundo? O que há de biográfico no videoclipe? Sendo mais sintético: o que da vida pessoal do artista em questão está sendo encenado ali com ou sem metáforas? Descreva as cenas, fale sobre os figurinos, maquiagem, direção de arte e detalhes sutis e informe as proximidades entre canção e imagem: o que nos é apresentado imageticamente corresponde ao que é dito na canção ou se distancia? As vezes as imagens falam sobre algo diferente do que está sendo dito na letra da música. Por que isto acontece?
  • Caso deseje organizar melhor as informações, você pode fazer uma tabela como esta:

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Na tabela completa constam os seguintes campos:

  1. Figurino da cantora
  2. Maquiagem da cantora
  3. Semelhança a outros personagens
  4. Gestual / movimentação
  5. Dublagem / atuação cênica
  6. Direção de arte
  7. Concepção de set
  8. Direção de fotografia
  9. Efeitos gráficos / especiais
  10. Edição / cortes / ritmo
  11. Articulação do tempo no clipe
  12. Semelhança do clipe a outros audiovisuais
  13. Relação do clipe com a iconografia do CD

“A direção de arte vai compor a identidade visual de um produto audiovisual, sendo resultado, portanto, de uma articulação entre técnica e conceito, princí- pio e fim. Para tratarmos da direção de arte, precisamos desconstruir a atividade analítica da imagem, como propôs Roland Barthes com a imagética publicitária, em dois campos: os signos icônicos e os signos plásticos. […] Já os signos plásticos evocados por Barthes visam categorizar e desconstruir os elementos de ordem de efeito de pós-produção no videoclipe. Texturas, interferências gráficas, digitais, enfim, um manancial de efeitos que, aos olhos do analista, compõem um contexto significativo do clipe”. (SOARES, 2012)

  • Fale sobre como o artista se apresenta no videoclipe. Ele atua ou faz a linha Sia e não gosta de holofotes? Não aparecer em um videoclipe pode dizer muito sobe dinâmicas da indústria musical além de gostos pessoais do artista. Como são os gestos do artista? Ele(a) dança? Como aquela pessoa que está cantando se apresenta para quem assiste?
  • Como se apresenta o tempo no videoclipe? Ele está em algum turno específico? É possível ver o céu? Há relógios? O universo em que o clipe se apresenta encena algum momento histórico real pelo qual a humanidade passou? Qual? Por que?

 

 Cuidado!

  • Videoclipes muito simples podem ganhar um sentido amplificado. É muito comum que o ‘conceitual’ chegue ao público de forma aparentemente minimalista como percebemos nesta análise (abaixo) de “Tennis Court” da cantora Lorde. Perceba que na ausência de várias tomadas, planos e cenários, o analista se atentou aos movimentos e expressões da artista.

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  • É fã do artista? Tente manter o bom senso. Dentro dos estudos em cultura pop, sim eu sei, se você morre pela sua diva, vai ser difícil não enaltecê-la, mas contenha-se. Você está questionando, analisando, usando seu olhar crítico e não fazendo comentários na página do POPLine. Elogie o que pode ser elogiado sem necessariamente fazer uma ode e rasgar metros e metros de seda. Não faça vista grossa a erros de continuidade e edição, por exemplo.
  • Não é necessário seguir a ordem proposta, mas é importante falar no começo da análise sobre quem você está analisando para situar quem está lendo.
  • Importante destacar que mesmo que a canção não tenha sido composta pelo artista, o clipe pode apresentar elementos que se alinhem com questões biográficas do intérprete.
  • Nada do que você vê em um videoclipe está lá por acaso.
  • Analisar um videoclipe ou qualquer obra visual é sim, em determinados momentos, se ater e explicar determinado quadro, se tratando de um videoclipe ou filme por exemplo. Contudo, obviamente, não é interessante uma descrição quadro a quadro explicando cada segundo da obra. Entenda o clipe como um texto que só faz sentido com todas as palavras e pontuações em conjunto.
  • O diretor de um videoclipe é sim importante e eles estão se destacando assim como vemos na área cinematográfica, no entanto, ele é apenas alguém que “ornamenta” o audiovisual, assim, o videoclipe é uma extensão corporal do artista ao qual damos 98% dos créditos da obra. Sintetizando: não é comum falar da “estética do diretor tal” ou de outras particularidades desse profissional numa análise de videoclipe como vemos na crítica cinematográfica. É sempre o artista versus o artista e o videoclipe.

Com este modelo (dicas, quem sabe) de análise não estou querendo bancar o chato e impor duras regras para analisar videoclipes, mas delimitar o trabalho de quem analisa a obra a fim de que o resultado seja objetivo e que relacione todos os elementos e forme sentido. Analisar um videoclipe depende do quanto você sabe sobre o artista e, em geral, dentro do campo de observação da cultura pop, os estudiosos não realizam trabalhos sobre movimentos, bandas e cantores que eles não se sentem atraídos ou tocados e por isso a importância de manter um certo distanciamento no momento da análise. Os artistas que amamos nos seduzem de tal modo que um peido que eles venham soltar pode nos deixar deslumbrados.

 

 


Referência

SOARES, Thiago (2004a). Videoclipe: o elogio da desarmonia. Recife: Livro Rápido. 2012.

_______________. A Estética do Videoclipe. João Pessoa. Editora da UFPB, 2013.

VINES DE LORDE. [comentário pessoal ou de organização]. Facebook. 13 dezembro 2014. Disponível em <https://www.facebook.com/vineslorde/videos/841003899295965/&gt; Acesso em 12 out. 2017.

 

Melancolia e Cultura Midiática Parte III: Lady Gaga, monstruosidades e a Arte Romântica

O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco. 


 

Levando em consideração que há muito do passado presente na produção artística atual, deve-se inicialmente contextualizar o que precedeu os “românticos da nova era” se é que podemos classificar Lana Del Rey e Lady Gaga como tal. Segundo relatos dos livros de literatura e história das artes, os românticos do século XIX não se vestiam de preto nem marcavam os olhos com delineador. Parece-nos, em primeiro momento, que a tribo dos góticos e algumas outras dissidentes do rock trouxeram para as ruas o estilo de vida partindo do que é representado nas obras de arte. É quase cômico imaginar um artista como Goya vestido de preto, com olhos pintados e com uma franja escondendo os olhos:

 

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Figura 6 – GOYA, Francisco. O sonho da razão produz monstros. (c. 1793-99). Saragoça: Museu de gravuras de Goya. Fonte: LANDEIRA e VIEIRA (2005, p. 298)

Na imagem autobiográfica de Goya, o pintor figura caído, derrotado, e várias feras parecem emergir dele. Tanto na obra de Lana como na de Gaga, é possível perceber varias referências aos monstros e feras. A palavra “sueño”, em espanhol, tanto pode significar sono como sonho. Essa duplicidade é interessante ao analisarmos a figura. O artista dorme e a razão aproveita o sono do artista para liberar todos os seus fantasmas e perturbações. Por outro lado, há o sonho do artista em desejar desmascarar todos os monstros da sociedade. Para esse fim, Goya está disposto a utilizar a sua melhor arma: a arte” (LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 298).

A figura do “monstro” é bastante evocada tanto na obra de Lana Del Rey como na de Lady Gaga. Na canção Monster[1], Gaga atribui a um amante a culpa da traição, o homem é representado como uma criatura sedutora, capaz de devorá-la. Se considerarmos também a persona artística de Lady Gaga, podemos perceber que a maneira como ela aparece na mídia também faz referência ao “monstro”, um monstro não usual,  feminino. É possível perceber também, num contraponto entre Goya e as artistas em questão, que todos têm consciência dos próprios “monstros” e dos “monstros” que assolam o mundo, no entanto há uma certa impotência quanto a resolução e aniquilação dessas feras destrutivas.

Por outro lado, se levarmos em conta a performance de Lady Gaga nos shows e a postura que ela assume diante dos fãs, dá para identificar um comportamento combativo diante de alguns males da sociedade. A cantora procura manter diálogo com os fãs, sendo bastante próxima de minorias como os gays. Ela frequentemente passa mensagens de aceitação, tema que é claro na canção Born this Way[2].

Seria Lady Gaga, deixando as interferências vindas do marketing, uma espécie de heroína romântica? Os fãs da artista, apelidados carinhosamente por ela como Little Monsters (Monstrinhos em português), são bastante devotos de Gaga, defendendo-a e atribuindo a ela as próprias conquistas, a autoaceitação, e a liberdade de poder exprimir-se da forma como querem. Lady Gaga, dentro dos padrões normativos sociais, se apresenta como alguém à parte de regras e não é enquadrada num modelo “exemplar” de individuo pelo uso de drogas e pela forma como o sexo influi nas suas composições. A proposta aqui não é a de julgar a artista mas de fazer apontamentos que podem se chocar com algumas características estéticas. Assim, partimos do fato de que o sexo, as drogas e um comportamento que foge a um manual ainda seguido pela sociedade levam o artista a um estado melancólico, de reflexão. Para Duarte[3] (s.d):

Digamos que o herói romântico vive em conflito com a sociedade opressora, tornando-se alvo de inúmeros questionamentos mediante os fatos por ela evidenciados. Para tanto, sua atitude oscila entre um ser ora marginalizado, desregrado, ora dotado de virtudes, justamente como forma de rebelar-se contra tal realidade. Esse herói muitas vezes é representado por figuras históricas ou por figuras idealizadas em virtude de seus próprios feitos, como, por exemplo, o cavaleiro medieval. (DUARTE, s.d, informação eletrônica)

O Romantismo é uma forma de arte subjetiva, onde a própria arte não poderia sobreviver separada da vida: para os românticos o que importa é a realidade de si cujo entendimento seria o primeiro passo para a compressão do mundo. “Tinha vontade de fazer da minha vida uma obra de arte” diz Del Rey em entrevista[4] a para o site My Space, já na letra da canção Applause[5], Gaga diz: “A cultura pop estava na arte, agora a arte está na cultura pop, em mim!”. Vejamos como o portal Rolling Stone [6](STRAUS, 2010, informação eletrônica) caracteriza Lady Gaga relacionando-a a arte:

É um exemplo de performance de arte altamente pessoal, fantasiada de espetáculo pop. Como ela repete vez após outra durante o show, ela é uma “free bitch” (algo como uma “louca livre”) e o público deve agir da mesma maneira: libertar-se não apenas das pressões da sociedade para se adaptar mas também do poder dos homens em sua vida, que tentam controlá-lo ou defini-lo (STRAUS, 2010, informação eletrônica)

Os românticos são emotivos e buscam lançar ao mundo toda a melancolia que guardam através das artes. Ainda segundo Ribeiro[7] (2013). A estética do romantismo está “próxima das formas barrocas, composição diagonal sugerindo instabilidade e dinamismo ao observador, valorização das cores e do claro-escuro, dramaticidade, fatos reais da história nacional e contemporânea da vida dos artistas, natureza revelando um dinamismo equivalente as relações humanas e a mitologia grega” Na arquitetura, observa-se o retorno das formas medievais como o estilo gótico:

O eu romântico, objetivamente incapaz de resolver os conflitos com a sociedade, lança-se à evasão. No tempo, recriando uma Idade Média gótica e embruxada. No espaço, fugindo para ermas paragens ou para o Oriente exótico. A natureza romântica é expressiva. Ao contrário da natureza árcade, decorativa. Ela significa e revela. Prefere-se a noite ao dia, pois à luz crua do sol o real impõe-se o indivíduo, mas é na treva que latejam as forças inconscientes da alma: o sonho a imaginação (BOSI apud LANDEIRA, VIEIRA, 2005, p.3007).

A arte romântica, tanto literária quanto no campo das artes plásticas ao longo dos anos, passou a ser apreciada por vários segmentos do rock, que introduziu os elementos dentro das representações imagéticas. Como já foi dito antes, a moda no rock aparece de forma bastante peculiar, como se o que era visto nas obras românticas agora fosse transposto para as ruas e galerias.

Antes os artistas pintavam seus quadros, faziam seus poemas, hoje é como se a indissociabilidade entre o que é arte e o que é vida estivesse em um nível maior, talvez pela liberdade de expressão que se materializa nas roupas e na consolidação de uma estética densa e obscura dos videoclipes. No clipe musical de You and I, faixa do álbum Born This Way, Gaga aparece vestida de preto retornando, em luto, às origens de um passado perdido. Vemos Lady Gaga como uma típica rockeira em uma encruzilhada, num lugar que parece distante da cidade. Na música, a artista fala do retorno ao seu amor perdido, remete as lembranças do período de conquista e do começo do romance. Ela se mostra saudosista em relação a suas origens, ao lugar onde viveu o amor, características essencialmente românticas:

 

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Figuras 7 e 8 – Frames do videoclipe da canção You & I. Fonte: Canal Oficial da artista no YouTube.

A proposta neste tópico não é de analisar os clipes citados, visto que esta parte será feita posteriormente, mas apontar tópicos que enquadram as artistas dentro das correntes artísticas trabalhadas. Assim, uma característica também romântica é fuga para o mundo dos sonhos, do lúdico. A fotografia em You and I se apresenta obscura, tem muito preto, tons de verde escuro militar e marrom. No clipe, Gaga aparece também vestida de sereia e também metade humana, metade robô, aliando o mundo de fantasia ao clipe. Diz a lenda que o único jeito de calar uma sereia é cantar melhor do que ela e no mundo pop, atualmente, a erudição do cantar tem sido cobrada ao extremo por fãs e pela crítica. Lady Gaga como uma sereia também pode ser traduzido como uma possível metáfora para a característica multifacetada da artista ou incômodo de Gaga frente a um mundo que quer torná-la “normal”. Evoca-se mais uma vez a figura do “monstruso”:

A insatisfação com o mundo leva o romântico a fugir da realidade, expressando suas obras de várias maneiras: fuga para a natureza, fuga para o passado, fuga para o lado noturno de vida, para o misticismo, o sobrenatural, o sonho, a loucura ou a própria morte. (RIBEIRO, 2013, informação eletrônica)

No clipe de Born to Die, veremos na análise posterior do vídeo como um dos objetos estudados neste trabalho, também encontramos traços fortes de nacionalismo, tema que também é bastante recorrente na obra de Lana Del Rey, nacionalismo que é considerado uma das marcas do romantismo. “Tell me I’m your national anthem! Red, white, blues in the skies, summer’s in the air and baby heaven’s in your eyes”, canta Lana em uma das faixas do álbum Born To Die, intitulada National Anthem.


[1] Faixa do álbum The Fame Monster (2009).

[2] Faixa do álbum homônimo lançado em 2011.

[3] A autora define o Romantismo no site educacional Alunosonline.com. Não há data especificada no site nem numeração de página. Disponível em < http://www.alunosonline.com.br/portugues/romantismo.html > Acesso em 15. Dez. 2014.

[4] Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=cu7dApJNQ9U > Acesso em 24 dez. 2014.

[5] Faixa do álbum Artpop (2013).

[6] Em um trabalho sobre cultura pop, é importante pesquisar como a mídia trata as artistas em questão, daí a necessidade de chegar portais e blogs especializados no assunto. É importante destacar também, que é comum no jornalismo a não identificação do autor da matéria o que pode ser notado nas referências ao longo deste trabalho.

[7]  A autora disponibilizou o material em formato de slides. Disponível em <http://pt.slideshare.net/profmarcela/esttica-romntica&gt; Acesso em 1. Dez. 2014.


Referências na ordem em que aparecem no texto

LANDEIRA, Luís J; VIEIRA, Alice. Língua Portuguesa. Brasília. ed. Cisbrasil. 2005

DUARTE, V. M. N. Romantismo no Brasil. (s.d). Disponível em < http://www.alunosonline.com.br/portugues/romantismo.html > Acesso em 15. Dez. 2014.

STRAUSS, Neil. O Coração Partido e as Fantasias Violentas de Lady Gaga. Rolling Stone. São Paulo. 2010. Disponível em <http://rollingstone.uol.com.br/edicao/46/lady-gaga-entrevista?page=2#imagem0 >. Acesso em 23. Dez. 2012.

RIBEIRO. Marcela M. A Estética Romântica. 10 slides. 2013. Disponível <http://pt.slideshare.net/profmarcela/esttica-romntica&gt; Acesso em 1. Dez. 2014.

Melancolia e Cultura Midiática Parte II: Lana Del Rey e a Arte Barroca

O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco. 


A arte barroca, de berço romano, teve grande expressão entre o fim do século XVI e a primeira metade do século XVIII como uma das respostas ao racionalismo do período Renascentista que pregava uma forma de arte contida, discreta, prezando a simetria. Este ar comedido era imposto pelas igrejas que não queriam distrações dos fieis durante os momentos de oração onde deveriam ficar totalmente em contato com Deus. A palavra “Barroco” em seu significado etimológico quer dizer “grotesco”, “sem forma definida”, “retorcido” e veio para emocionar, impactar a quem via as obras.

O período de apogeu desta corrente, que compreende todo o século XVII, foi um momento em que o mundo se encontrava atento a questões ligadas a espiritualidade, um período de muitos conflitos religiosos e o Barroco procurava, digamos, atenuar o maniqueísmo buscando o equilíbrio entre forças opostas: bem e mal, Deus e o Diabo, razão e emoção, pureza e pecado, alegria e tristeza.

A arte, especificamente as artes plásticas – parte que nos interessa por estarmos tratando essencialmente de estética – tinha uma fidelidade maior entre o que era real e o que era expresso pelos artistas em suas obras. Ao contrário das artes renascentistas, o barroco procurava representar o ser humano entre a linha tênue do que era belo e do que era feio e natural do homem.  A arte Barroca é realista, dramática, exagerada, dinâmica, inclinada ao sofrimento e possui como marca o jogo de luz e sombras deixando as figuras humanas iluminadas contrastando geralmente com um fundo escuro. A estética Barroca remete a “uma arte violenta e dinâmica, possuída pela dupla consciência da cisão do mundo e de sua unidade, arte do claro-escuro, contrastes, paradoxos, rebuscadas inversões e cintilantes afirmações”. (PAZ apud LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 208).

Assim, podemos estabelecer pontos de melancolia nas representações barrocas, pois o drama humano é sempre recorrente “tornando-se o elemento básico, geralmente, acompanhado de gestos muito expressivos e teatrais” (LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 208). Teatralidade que está presente nos clipes de Lady Gaga e Lana Del Rey, esta última mais próxima da cinematografia. Entre os pintores mais famosos do Barroco estão: Caravaggio, Jan de Heem, Velázquez, Rembrandt e Bruegel. No Brasil podemos situar o artista mineiro Ataíde.

Assim é o barroco, um oxímoro, arte paradoxal que remete às contradições humanas da vida como nos conta muito bem Caravaggio na obra “Baco” (1590). Algumas características desta obra e do barroco serão utilizadas ao analisar, principalmente, a estética melancólica de Lana Del Rey:

 

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Figura 1– CARAVAGGIO, Michelangelo. Baco (1590). Florença. Uffizi. Fonte: LANDEIRA e VIEIRA (2005, p. 208)

A beleza feminina, andrógina de Baco – considerado Deus do vinho, das festas, excessos e dos prazeres sexuais, contrasta com os braços musculosos e nos passa um olhar entorpecido, seduzindo a “vítima”.  Ele parece nos convidar para uma noite regada a muito vinho, sexo e rock n’ roll. Percebe-se também as peculiaridades do barroco: a obra se dispõe assimétrica, densa. Baco aparece iluminado com um pano de fundo escuro e há o uso de sombras como é perceptível na garrafa de vinho. É possível ressaltar ainda que, como há a representação de um deus mitológico, o Barroco também tange para o lado religioso, contudo, não é somente o belo, o sexualmente atrativo que está representado no barroco. Há o feio que também é de natureza humana e há alguns ideais de liberdade presentes na obra que se assemelham ao discurso live-fast-die-young de Lana Del Rey nos clipes e na música:

Mas, vamos lembrar-nos de que, na vida, todo o prazer é transitório e de curta duração, o artista mostra-nos também frutas que já passaram ligeiramente do ponto: a romã, símbolo da coroa de espinhos do Cristo, está demasiadamente madura, e a maçã, símbolo do pecado original, está bichada. Caravaggio representa, dessa maneira, os temas do Tempus fugit (uma expressão latina que significa “o tempo passa”) e o Carpe Diem (outra expressão latina que significa “aproveite o dia”, ou seja, ”viva intensamente cada momento”. Sendo a vida tão breve e passageira, Baco nos incentiva a esquecermos o amanhã e entregarmo-nos ao momento presente, vivendo-o intensamente (LANDEIRA e VIEIRA, 2005, p. 2009).

Até aqui tomamos esta corrente com uma arte sombria, detalhada, que tenta se aproximar da representação humana com todas suas qualidades, defeitos e angústias que vão de encontro à tentativa de compreensão das contradições do mundo. Há também, além de todas as características elencadas, a questão religiosa, como dito anteriormente – tema que é explorado em Tropico[1], curta metragem musical da cantora Lana Del Rey lançado no ano de 2013. As questões religiosas são referências recorrentes na obra da artista, mas para fins demonstrativos e pelo fato da produção visual concreta da cantora em Tropico, vamos utilizar o filme citado.

Durante a música Body Eletric, Lana aparece interpretando Eva (do conto bíblico Adão e Eva). Marylin Monroe, Elvis Presley e Jesus Cristo também aparecem no vídeo. No curta, em uma das cenas, Eva caminha junto com Adão numa espécie de Jardim do Éden pós-apocalíptico. Ainda é possível ver um unicórnio, animal mitológico que simboliza a força e a pureza. No mito original do unicórnio, apenas as mulheres virgens e puras são capazes de domá-lo.

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Figura 2 – FrameTropico (2013)

Em Tropico, Lana Del Rey caminha numa espécie de paraíso – pelas referências, parece ser o Jardim do Éden. Em algumas cenas ambos, o Adão e a Eva pós-apocalípticos, aparecem em danças sensuais, como se estivessem profanando o paraíso e Lana ainda aparece brincando com uma serpente, animal que no conto épico original, seduziu Eva fazendo-a comer o fruto proibido acarretando a expulsão do casal do paraíso. O unicórnio mostrado na cena também faz parte das representações artísticas do estilo barroco como podemos notar na obra La Doncella y el Unicornio (1602) do pintor Domenichino Zampieri (1581 – 1641):

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Figura 3 – ZAMPIERI, Domenichino. La Doncella y el Unicornio (1602).Roma. Palácio Farnese. Fonte: Es.wahooart.com.
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Figuras 4 e 5 – FrameTropico (2013)

Assim como no Romantismo, dentro do Barroco podemos notar a existência de figuras oníricas, como é o caso do unicórnio que aparece em Tropico. É o que podemos chamar de “criaturas monstruosas”, de um mundo fantasioso, e a beleza do unicórnio não o exclui de sua monstruosidade. Na religião católica, o cavalo branco com apenas um único chifre representava, na idade média, a pureza da mãe de Jesus Cristo e reencarnação de Deus. Há portanto, um jogo conflituoso entre o bem (o unicórnio) e o mal (a cobra) na obra de Lana.

 


[1] No curta, são apresentadas ao público as canções Bel Air, Body Eletric e God’s and Monsters do álbum Born to Die – The Paradise Edition.

 


 

Referências na ordem em que aparecem no texto

LANDEIRA, Luís J; VIEIRA, Alice. Língua Portuguesa. Brasília. ed. Cisbrasil. 2005

A Reputação de Taylor Swift: nossa pior face que não gostamos de ver

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Por que Taylor Swift é tão odiada? É natural que nos comentários dos maiores portais especializados em música e cultura pop a gente se depare com os haters apontando defeitos e fracassos de determinado artista, mas quando se trata de Taylor Swift a mobilização parece ser bem mais extrema, já notaram? De fato os fãs de música pop acabaram se equiparando a torcedores de futebol e as grandes premiações musicais são praticamente finais de um campeonato esportivo. Não vou negar que acho toda a movimentação bem divertida de acompanhar e acabo rindo bastante. Todo o furor em torno da cantora me levou à pergunta que abre este texto e algumas questões vieram à tona desde a aparência da artista até como ela se comporta dentro do campo midiático e o que temos acesso de sua vida pessoal. Estaria Taylor sendo vítima da imagem que ela criou para interpretar a pessoa que todos dizem que ela é?

Tudo começou no VMA de 2009 onde aconteceu toda aquela confusão com Kanye West, certo? Não vou entrar em detalhes, pois já saturou. Na época, todos tiveram pena da mocinha e o rapper parecia o Lobo Mau. De 2009 pra cá, a carreira de Swift foi alavancada pelo “Speak Now” (2010) e o “Red” (2012)” e, desta forma, a crítica e o público passaram a dar mais atenção a temática das canções. A matéria prima para composição de Taylor Swift são os namoros fracassados e todos sabem disso, tanto sabem que a opinião popular considerou que a artista se envolvia em muitos relacionamentos. O consagrado apelido “Taylor Swifistinha” que o diga.

O contraditório entre opinião pública e a vida amorosa de Taylor é que os álbuns “19” (2008) e “21” (2011)  de Adele possuem a mesma temática: dor de cotovelo, relações complicadas, términos amorosos e, mesmo com a similaridade lírica entre as artistas, Adele nunca foi taxada de vadia, por exemplo. Temos que concordar com uma coisa: a maioria das músicas que ouvimos fala de amor nas suas melhores e piores interpretações. Por que então o peso da mão crítica não cai também sob os homens da música, sob Adele ou outras cantoras? Será que é porque enxergamos Adele como a “gordinha ressentida” da qual devemos sentir pena e Taylor a mulher magra, alta, branca e esguia a qual somos treinados para odiar ou sentir inveja porque aquele é o padrão que não estamos seguindo? Não queria ir para o campo mais simplista do debate e associar coisas como inveja, por exemplo, mas é que, as vezes, o nível já está tão baixo que é irresistível e impossível na descer até lá. Assim, a conclusão bem grosseira que tiramos é a de que há certo toque de machismo em torno do ódio direcionado à Taylor Swift. Um machismo seletivo.

Como forma bem sucedida de capitalização, Taylor escreveu “Blank Space” single do disco “1989” (2014) onde ela imprime em música e vídeo a forma como a mídia e os fãs de música a enxergam. “Bad Blood”, canção do mesmo álbum, seria endereçada a Katy Perry como uma forma de resposta a toda uma confusão envolvendo turnês e dançarinos e o lançamento do videoclipe passou uma segunda mão na pintura de “jogadora de shade” que foi iniciada em “Blank Space”.  Neste quesito a crítica também engrossa seu discurso moralizante em relação à artista que “não deveria jogar mulher contra mulher” e que provavelmente também não pode escrever canções para responder o que Swift considera como ofensa ou colocar eventuais mágoas para fora botando em prática a psiconeuroimunologia.  Ao meu ver, o clipe de “Bad Blood” (que eu, sinceramente, acho de péssimo gosto estético) não trata de gêneros,  sororidade ou feminismo, mas da visão da artista sobre uma suposta ausência de caráter de alguém que, por capricho do destino, também é uma mulher.

Taylor Swift não é uma santa e ninguém, até por autoproteção, deve ser um exemplo de benevolência e ingenuidade dentro da música pop.

Com isso quero dizer que vamos nos voltar contra alguém sempre que acharmos que devemos. Você que me lê levaria em consideração o gênero de alguém se essa mesma pessoa fizesse algo que você entendesse como ruim contra sua pessoa, sua família ou alguém que você ama? Pode ser fácil responder que sim fora do calor do momento, mas todos somos humanos e sentimos raiva, rancor, ódio e toda sorte de emoções e sentimentos.  Talvez ao mostrar nossa pior face que não gostamos de ver, Taylor nos cause repulsa, já respondendo a questão inicial. A menos que você seja um monge tibetano (e nem eles, acho) ou Jesus Cristo, ainda não é possível suprimir totalmente nosso lado obscuro e as redes sociais (sempre elas) frequentemente estão aí para dar voz a nossos demônios interiores. Mandamos indireta no Twitter e Facebook, sentimos inveja de nossos amigos no Instagram quando eles aparecem felizes nas fotos e falamos mal de quem não gostamos, porém, a diferença entre a gente e Swift é que ela transforma tudo isso em dinheiro, tornando as sombras operárias de uma fábrica muito rentável.

Melancolia e Cultura Midiática Parte I: A Estética Melancólica

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O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco. 


A tentativa de definição de uma estética melancólica que pode ser aplicada dentro de uma análise direcionada para videoclipes parte do uso das representações imagéticas deste estado emocional na pintura, fotografia e nas correntes barrocas e românticas, precursoras e principais expoentes desta estética. Mas o que é a melancolia? Obviamente, antes de representar materialmente a abstração do sentimento, o homem sentiu na pele a manifestação da melancolia. Assim, entendendo inicialmente do que se trata este estado humano, é possível situar como a performance melancólica do corpo pode ser representada através das imagens, como a música ganhou forma performatizada dentro de um clipe musical. O intuito aqui não é o de embarcar em conceitos vindos da psicologia nem da psiquiatria, mas criar um ponto de partida para discorrer sobre a estética da melancolia: do grego, mélas – negro e cholé – bílis.

Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da autoestima está ausente no luto; afora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo — na medida em que este não evoca esse alguém —, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrição do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses (FREUD, 1917, informação eletrônica).

A partir de Freud[1] (1917), tem-se uma ideia do que caracteriza a melancolia num sentido, digamos, puro, num indivíduo e consequentemente dá luz para entender como o estado melancólico se materializa no corpo performático. Assim, inicialmente, traduz-se como uma representação melancólica, corpos que sibilam o desânimo, a apatia em relação ao mundo e a tristeza diante da câmera através da dinâmica facial e gestual. Também pode-se inferir questões como a raiva e descontentamento como produtos de um estado reflexivo.

Não há no melancólico, por tanto, a necessidade da perda para então entrar em estado de luto. Existe certa apatia em menor grau em relação aos estímulos agradáveis, o desânimo para o que antes era interessante. “Tem gosto de cinza”, diz Justine ao colocar na boca um pedaço de um de seu pratos preferido no filme Melancolia (2011) do cineasta Lars Von Trier.

A melancolia foi considerada como uma doença por Hipócrates (460- 377 a.C),  pai da medicina. Para ele o melancólico é portador de algo “como um estado de tristeza e medo de longa duração” (GINSZBURG e SCLIAR apud TEIXEIRA, 2005, p. 44). É importante destacar que, hoje em dia, a medicina considera diferenças entre a depressão e a melancolia. O depressivo está doente, em geral incapacitado de realizar a maioria das atividades de que gosta. Provavelmente, se um artista estiver em depressão, assim como um indivíduo que tem outro tipo de profissão, ele não conseguiria realizar o próprio trabalho. A melancolia é um estado reflexivo, não provoca uma dor tão dilacerante quanto a que a depressão pode trazer. Não descartamos assim, a possibilidade de um artista depressivo, em momentos de melhora da doença, poder produzir algum material. Ressaltamos também que há a possibilidade do compositor de expor artisticamente as experiências obtidas de um estado depressivo após a cura da doença.

Hipócrates considera duas formas de melancolia: a endógena, aquela que aparece sem motivo aparente; e a exógena, que surge em resultado de um trauma externo. Nas palavras de Scliar (2003), “A melancolia, sintetizou o ‘pai da medicina’, é a perda do amor pela vida, uma situação na qual a pessoa aspira à morte como se fosse uma bênção.” (p.70). É por meio da “teoria dos humores” que Hipócrates explica a melancolia. O temperamento dependia do equilíbrio de quatro humores básicos no corpo – sangue, bílis amarela, bílis negra e a linfa. O acúmulo de algum dos elementos dos humores resultava no predomínio de determinado temperamento. A bílis negra representava o outono e, como a terra, era fria e seca, tornando-a hostil à vida e podendo ocasionar a melancolia, uma doença resultante de seu acúmulo no baço (TEIXEIRA, 2004, p. 44).

Na estética, campo que nos interessa dentro deste trabalho, evocamos o ideal das correntes barrocas e românticas, linhas que perpassam até hoje elementos imagéticos dentro da música como é perceptível nas subdivisões do rock como o punk, nos góticos e, recentemente, nos emos[2]. A imagética está alocada na maquiagem carregada tanto para os homens como para as mulheres, no contraste da pele branca e dos cabelos pretos, nas roupas escuras, no modo como adeptos destes segmentos enxergam o mundo – na maioria das vezes um lugar feio, de poucos prazeres.  Há muito preto, muita sombra e há o branco também como símbolo estéreo diante do soturno:

A linhagem dos melancólicos se estende modernamente, desde os príncipes e cortesãos do teatro barroco, passa pelos poetas ultrarromânticos, pelos dândis decadentistas, pelos aristocratas neo-barrocos sem poder, e continua até os punks góticos. A ênfase na melancolia contemporânea, a partir do Neo-Barroco, que tem suas raízes nos anos 50, deve ser entendida como uma espécie de acerto de contas geracionais com a segunda metade dos anos 70 e início dos anos 80 deste século. Se não se trata de traçar uma gênese da melancolia, a preocupação com a busca de uma tradição melancólica é fundamental para redimensionar estes anos de dispersão e ceticismo, pós-utópicos, pós-punks, pós-vanquardistas, enfim, pós- modernos. O diálogo com a melancolia barroca vai além da simples reafirmação da desilusão, da constatação de perdas, ele visa dar uma espessura e estatura históricas a um período em geral subestimado quando contraposto aos anos 60 (LOPES, 97, p. 11).

Assim, podemos estabelecer uma relação próxima entre as artes clássicas e os artistas da cultura pop atual que cultivam o que Lopes (1997) chama de “tradição melancólica”. Assim como a felicidade momentânea, a melancolia nunca irá desaparecer da condição humana e para cada ser feliz, sempre haverá outro melancólico.  É como se através das eras a melancolia se reinventasse, afinal o estado melancólico e as necessidades reflexivas são características inerentes ao ser humano que usa a arte como meio de expressão ou de fuga.


[1] É possível encontrar o texto completo da obra “Luto e Melancolia” (1917) em páginas não numeradas disponível na internet. A obra citada está disponível em <https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf > Acesso em 25. Dez. 2014.

[2] Gênero musical dissidente do punk que se popularizou no Brasil entre os anos de 2003 e 2006. Entre as bandas mais influentes dentro da cena pode-se destacar: Fall Out Boy, Simple Plan, AFI, The Used e My Chemical Romance.

 


Referências na ordem em que aparecem no texto

FREUD, Sigmund. “Luto e Melancolia”. 1917 Disponível em < https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf&gt; Acesso em 25. Dez. 2014.

TEIXEIRA, Marco Antonio Rotta. Melancolia e depressão: um resgate histórico e conceitual na psicanálise e na psiquiatria. Revista de Psicologia da UNESP, 4(1), 2005. Disponível em < http://www2.assis.unesp.br/revpsico/index.php/revista/article/viewFile/31/57&gt; Acesso em 11 Jan. 2015.

LOPES, Denilson. Nós os mortos. Rio de Janeiro. Viveiros de Castro Editora Ltda. 1999.

Gestualidade, voz e cenário em Lana Del Rey e Lady Gaga: o corpo melancólico

The Weinstein Company Pre-Oscar Dinner presented in partnership with Chopard, DeLeon Tequila, FIJI Water, and Lexus at the Montage, Los Angeles, America - 27 Feb 2016

O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco,


Cada faixa musical está inserida num contexto maior, o de gênero musical. Assim, as expressões corporais que decorrem de uma canção, são atreladas a uma instância genérica. Para ficar claro, toma-se como exemplo o público de heavy metal que nos shows pulam, batem cabeça e gritam as letras das canções. Ao contrário dos roqueiros, aqueles que frequentam shows de funk geralmente rebolam, dançam uns com os outros e até tem uma coreografia para as músicas que são tocadas. Desta forma, um videoclipe pode aderir as corporalidades de gênero e vice-versa.

Num show de Lady Gaga, ou mesmo em vídeos de fã, é comum a encenação da coreografia dos videoclipes, já quando se trata de Lana Del Rey, podemos comparar a um show de MPB onde não vemos coreografias, porém mesmo com o corpo parado o público responde aos impulsos sonoros da canção. Chorar ao ouvir uma múaica, o olhar atento ao artista, mover-se de um lado para o outro também são questões que devemos levar em consideração no campo das gestualidades.

Mesmo com o ritmo dançante característico da musicalidade de Lady Gaga, nas performances da artista ao vivo, a cantora chora, se emociona ao falar com os fãs e se vale de muitos elementos da teatralidade, aparecendo ensanguentada, jogando-se no chão ou fazendo do próprio show uma espécie de musical que vai do alegre ao muito triste. Já quando falamos de Lana Del Rey, percebemos a corporalidade da artista principalmente nas suas expressões faciais. Muitas vezes o olhar parece perdido, a cantora se move lentamente e passeia pela contemplação e pela sexualidade, levantando o vestido e rebolando até o chão e, em algumas vezes, flertando com um dos músicos da banda. Assim, o corpo responde minimamente a música e no videoclipe não seria diferente.

Na dinâmica gestual, inclui-se também a oralidade, visto que a voz de uma artista também transmite emoções, identifica uma idade, sotaques, trazendo a tona uma marca que possui uma história. Desta forma, é possível identificar nas canções particularidades biográficas do artista em questão mesmo que a faixa musical não tenha sido de autoria do intérprete. Assim, concluímos que o ato de cantar se relaciona com a autenticidade do músico que deixa transparecer sua vida durante a performance quer ele esteja apresentando uma composição própria ou de terceiros:

O primeiro ponto generalizante que podemos tomar na apreensão da voz na cultura pop é que ouvimos expressões pessoais dos cantores – mesmo, talvez especialmente, quando eles não estão cantando suas próprias canções- de um modo que um cantor clássico, até uma estrela dramática e “trágica” como Maria Callas, não faz. [grifo do autor] (FRITH apud SOARES, 2013, p.163).

Desta forma, cantar não diz respeito a apenas impelir sons, mas ao um conjunto de voz, gestos faciais e corporais:

A discussão em torno da forma com que podemos problematizar a questão da voz no videoclipe pode se delinear na forma com que o clipe, por exemplo, iconiza esta voz do artista protagonista do audiovisual. É de fundamental relevância classificar a voz de quem canta e ver de que forma os aparados midiáticos sintetizam imageticamente esta voz. Gritos, sussurros, especificidades vocais podem ser configurados imageticamente através de movimentações de câmera, recursos de edição ou registros de gestuais do artista (SOARES, 2013, p. 165).

Pelo exposto, Gaga e Del Rey possuem características vocais que hora se aproximam e hora se distanciam. Enquanto Lady Gaga possui um voz, digamos, mais “para fora”, Lana aparece com algo internalizado, intimista. Quanto as variações de tom, ambas passeiam entre o grave e o agudo em boa parte de suas produções, tendo demarcado territórios de tal forma que é possível reconhecer uma música mais aguda ou grave de ambas as partes. Há uma tensão permanente em Del Rey, uma melancolia reverberante enquanto em Gaga notamos um certo desespero gritado, como alguém que está agonizando de dor. Parece-nos que Lana canta para si, só que faz isso de forma a deixar que os outros escutem e essa introspecção é visível no modo como ela dubla nos vídeos, sempre com um gestual lento e contemplativo o que também é levado para os palcos. Por outro lado, Gaga parece querer exprimir sua dor para o mundo e faz isso aliando voz a coreografias marcadas: ela canta e move-se de tal forma a querer que alguém chegue, acabando assim com um estado de desconforto.

A essas demarcações vocais podemos atribuir o conceito de “estetização vocal” visto que a forma como um artista canta uma música pode ser resultado da construção de uma imagem. Se tomarmos as características elencadas anteriormente, podemos dizer que estamos diante de duas personagens: uma lânguida e intimista e a outra teatral e explosiva. Assim caracterizadas e descritas, não é necessário que neste parágrafo seja dito a quem pertence a languidez e a explosividade, por exemplo. Não podemos ignorar também o caráter biográfico nas personas artísticas visto que a atenção deve estar voltada para a história contada por aqueles personagens que na maior parte das vezes serve como canal para disseminar a arte.

A musicalidade de ambas – voz e corpo, aparece ambientada em espaços e paisagens distintas. É preciso salientar primeiro que assim como a performance, a canção também traz cenários inscrito. Ao ambiente em que um artista performatiza uma música em um clipe atribuímos o conceito de “cenário”. Mais uma vez nos vemos atrelados a questões de gênero musical. Assim como foi dito nas inferências sobre gestualidade, os espaços onde a música está alocada dentro de um clipe dizem muito do gênero ao qual pertence a canção. Importante ressaltar que quando falamos em ambiente e cenário não estamos nos referindo necessariamente e somente a espaços físicos mas também as paisagens que são evocadas na mente de quem escuta uma faixa musical.

Se pensarmos no hip hop, por exemplo, a audição de uma canção deste gênero pode nos remeter a um contexto espacial urbano de periferia, dos becos e ruas do Brooklyn. Por outro lado também podemos criar novos ambientes baseados ou não nas nossas memórias e pensamentos mais oníricos. Interessante notar que alguns tipos musicais estão praticamente indissociados da questão de cenário fazendo com que praticamente, canção e espacialidade se completem. Executar Vassourinhas, por exemplo, no meio do ano pode gerar um certo estranhamento em relação a canção visto que não é época de carnaval, que não existem blocos na rua nem o ar empachado – para os que não gostam, ou libertador e de alegria – para os que gostam de carnaval.

Quando a articulação de espaços físicos perceptíveis no mundo real em videoclipes, é notada uma estratégia de endereçamento do produto videoclipe. Assim, ambientar uma canção de hip hop em ruas do Brooklyn, tomando base o exemplo que já foi dado “é antes uma estratégia de endereçamento do próprio artista e a construção de uma dinâmica de autenticidade” (SOARES, 2013, p.171)

Apropriando-se dos conceitos e trazendo para os objetos em questão, é perceptível e será comprovado na análise de videoclipes (aqui e aqui), uma junção entre espaços geográficos reais e ambientes oníricos. O fato é que, Lady Gaga assume a personagem por mais tempo do que Lana assume, isto é, visto pelas roupas da artista concluímos que ela (Gaga) tenta juntar um mundo de sonhos com a realidade até mesmo fora dos videoclipes e das performances nos shows.  Se nos dirigirmos para a composição do cenário em Gaga vemos espaços futuristas, abertos e preenchidos com corpos que dançam e percorrem todo o lugar. São em geral e sobretudo nos videoclipes vindos dos trabalhos mais recentes da artista, ambientes de terrores que bebem das fontes do rock.

Os cenários de Lana Del Rey estão mais próximos da esfera do geograficamente possível. Ambientes que são reconhecíveis dentro do mundo real adornados com uma estética retrô vinda principalmente da direção de arte e da pós-produção dos clipes. A legitimação da cantora como uma artista indie-pop e que tem uma grande influência da surf-music nos leva para litorais, remetendo ao mar e lugares paradisíacos.

 


SOARES, Thiago. A Estética do Videoclipe. João Pessoa. Editora da UFPB, 2013.

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