Lana Del Rey – Born to Die [Análise]

1 Não gosto da ideia de manter uma monografia juntando poeira num departamento e muito menos apenas consumindo bytes dentro de um computador. O que escrevemos deve ser lido por outros, deve circular pelo mundo. É pra isso que entramos numa universidade, pra gerar conhecimento. De antemão, adianto que essa é uma análise de videoclipe técnica e narrativa que não adentra a fundo no campo semiológico. “Born to Die” é especial pra mim. O disco foi a base melódica de toda a minha faculdade e a canção foi a melhor companhia on a friday night. Lana é intensa, é quieta e embebida num óleo escuro, melancólico e assustador. Lana é do tipo que não ama pela metade, é sempre um exagero no amor, amor que parece ferir de morte.  

A análise a seguir é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida na Universidade Federal de Pernambuco  pelo autor deste blog.

Inicialmente, o roteiro do clipe intitulado The Lonely Queen, foi escrito pela própria Lana Del Rey e adaptado junto ao diretor Yoann Lemoine. Gravado em um dos maiores châteaux da França, o Palácio de Fontainebleau, o clipe teve um orçamento 15 vezes maior do que seu antecessor (Video Games) e surgiu numa época em que os videoclipes de cantoras pop aparecem sempre com muita dança e performances coreografadas. Em Born to Die, Lana aparece como diz o título do roteiro e como é dito na letra da música: “I feel so alone, on a Friday night”, como uma rainha solitária flanqueada por dois tigres, portanto a artista está protagonizando o clipe. Trata-se de uma viagem de carro e um jogo de tensão sexual no qual a artista morre no final. Há a presença também daquele que parece ser de quem Lana fala na música, um homem com quem ela vive uma relação amorosa. A cantora se mostra com um longo vestido branco e coroa de flores azuis e brancas – o azul claro e escuro de tom opaco das flores nos passa um aspecto putrefeito. Ainda é possível destacar os longos cabelos ondulados e acobreados, batom vermelho e grandes cílios de Lana. Há muito glamour nas cenas, há a ostentação de um que nos transporta para uma atmosfera densa, conflituosa emocionalmente.  Entre os outros figurinos usados por Del Rey no clipe, podemos ressaltar uma camisola branca e, nas cenas onde ela está com o outro ator, uma camisa com franja, sutiã vermelho, short jeans e sapatos modelo allstar na cor vermelha e um grande crucifixo no pescoço. As roupas no clipe sugerem uma estética fashionista da artista, pois indiretamente são apresentados modelos de roupa que caracterizam a persona Lana Del Rey. Tais roupas usadas em Born to Die se alinham ao nacionalismo presente na obra da artista: o allstar vermelho e o jeans são ícones da moda americana e atrelados a historicidade que possuem, ressaltam o quê vintage de Lana Del Rey e faz referência as vestes alternativas da cultura americana dos amos 50 e 60. Na primeira cena do vídeo – em plano médio, vemos a artista abraçada com aquele que parece ser o amor de quem Lana fala na letra da canção e ambos estão sem camisa. Lana abre os olhos e fita a câmera enquanto o homem a abraça de olhos fechados. É uma imagem de abertura, uma espécie de capa para um filme romântico e trágico. 1 Importante ressaltar que a bandeira americana aparece tremulante, literalmente como pano de fundo nesta primeira cena. O patriotismo romantizado de Lana é um tema que está presente por todo o disco até nas faixas que não são músicas de trabalho, assim, encontramos uma forte ligação da artista com o país de origem (EUA) elemento que no clipe se relaciona com a iconografia do álbum no qual está a canção. O cenário onde a artista performatiza a faixa musical – o Palácio de Fontainebleau tem arquitetura clássica renascentista que hora nos remete as artes barrocas pela densidade e hora para o gótico com suas grandes ogivas no incrustadas no teto. A voz da artista na gravação original da canção parece se encaixar bem dentro do ambiente onde o clipe foi gravado, principalmente nas cenas onde Del Rey aparece em um grande salão ou mesmo sentada no trono. Se ouvirmos apenas o áudio da faixa Born to Die, perceberemos reverberações que parecem ter saído de uma cantora se apresentando num grande salão de uma igreja, por exemplo. Além das tomadas internas existem as externas onde prevalecem os cuidados com a luz contrastando com a obscuridade da noite que se aproxima. 2 Lana em determinadas cenas é “escaneada” por uma luz quente amarela e depois colocada nas sombras novamente. É como se a luz que passa por ela tivesse alguma influência no humor da cantora.  Dentro deste universo, a história que é passada é a de um amor que por algum motivo não deve se concretizar. O amor de Lana é um homem magro, porém de formas definidas, cabelo de tamanho médio, loiro e possui muitas tatuagens. Há uma dúvida sempre presente no videoclipe sobre o amor vivido pela artista: é como se ela quisesse vivê-lo e como se não quisesse ao mesmo tempo. Nas imagens a sensação evocada é a de que Lana parece estar sendo obrigada a beijar o namorado, pois em alguns momentos o homem parece tocá-la com violência, virando o rosto de Lana. Se partirmos para a premissa de que as expressões faciais da cantora refletem o que ela está pensando, concluímos que há uma postura pessimista em relação ao que pode acontecer, a o futuro que está reservado para ambos. Este dado é perceptível no videoclipe através da performance facial da cantora que em apenas uma única cena do clipe esboça o que seria o começo de um sorriso irônico. Ainda, se nos debruçarmos para encontrar uma relação da letra da música e suas conexões com o que é expresso nas imagens, levando em conta o que foi dito anteriormente sobre o pessimismo da artista, é como se o título da música em questão refletisse o que Lana sente durante todo o vídeo: é um amor que “nasceu para morrer”, fadado ao fracasso, e mesmo consciente disso ela não o evita. A construção da diva, altiva e etérea, intocável sentada em seu trono e em alguns momentos com olhar, digamos, “fatal” para a câmera também é representada no vídeo. Parte disso se deve a um imperativo da cultura pop de evidenciar o rosto da artista como detentor da autoria da composição. O batom vermelho, remete a outra influência da cantora retirada do filme Lolita (1997). Percebemos assim, outro elemento iconográfico que se relaciona com o álbum. Outro detalhe da iconografia presente em Born to Die é o carro que aparece na cena. Assim como o nacionalismo citado anteriormente, dentro do disco Born to Die ouvido em sua totalidade para a realização deste trabalho, é recorrente que a artista cite marcas de carros famosos. O carro em questão parece um elemento chave dentro da narrativa, afinal é ele quem transporta o casal e é nele em que há um fim para a história. 3 Diante da câmera a artista, na maior parte das vezes em que se encontra diante dela, demonstra uma postura de comando, intimidadora. A expressividade do rosto de Lana é marcada pelo tédio, em alguns momentos ela figura em estado de reflexão, melancólico, aparecendo com um semblante de dor. 4 Aparentemente saudável, ela parece sofrer com as derrocadas do amor que está vivendo. Percebe-se então que durante a performance da cantora no clipe, há a encenação de uma flutuação, inconstância de humor e certa apatia melancólica, por isso sempre nos reportamos a expressão “em alguns momentos” dentro desta análise. No clipe, a artista instaura um modelo performático para a persona Lana Del Rey, sempre lânguida, intimista e entediada como é frequentemente perceptível em ensaios fotográficos da cantora e em suas apresentações ao vivo. Existe, portanto, tomando consciência de que na época em que a artista foi lançada ela era obviamente um produto novo, houve uma preocupação da equipe de produtores por trás da cantora de torná-la algo a parte do pop vigente. Como foi destacado anteriormente, as roupas, a postura, o videoclipe e outros elementos que perpassam a figura “Lana Del Rey” como as roupas e o estilo vintage trazem uma artista em novos moldes, fora e ao mesmo tempo dentro de nosso tempo. Fora porque é uma personagem que parece ter saído dos cabarés dos 60 e atual porque tem o glamour da modernidade e dispõe-se sob as regras da cultura pop moderna. A montagem em Born to Die, na maior parte das cenas, se configura lenta, partindo do principio de que a canção que o originou tem uma sonoridade também lenta, grave, reverberante e épica, assim, no videoclipe há uma predominância de takes longos. A câmera se move lentamente na maioria dos takes como se forçasse o espectador a um olhar contemplativo da beleza da artista e do modelo, da locação, dos detalhes onde o clipe foi gravado, cheio de pinturas e formas detalhadas. Para exemplificar, o segundo take do clipe possui um longo traveling de câmera mostrando os desenhos do teto do salão onde a artista aparece.  O ritmo na edição do clipe aparece mais rápido nas cenas externas onde Lana nunca aparece só, sempre acompanhada do namorado. Não existem outros personagens no clipe além dos dois tigres, obviamente; Dentro da atmosfera que é passada é possível sentir o perfume que o videoclipe emana, notas de musk e lavanda parecem sair da tela e ampliar os sentidos para a obra. Se tomarmos os detalhes de ambiência do clipe, mais especificamente nas vezes em que o céu aparece, percebemos que a temporalidade do vídeo se passa no final da tarde – o céu nublado e cinzento mas ainda recebendo a luz do sol, e no céu escuro, noturno, quando a artista aparece indo de carro em direção a algum lugar junto com o seu afeto. No final do clipe, ao que indica a cena, ainda é noite. 5 Lana Del Rey não costuma falar muito sobre suas produções, assim, vendo um trecho curto de um making of  de Born to Die, o simbolismo presente na figura dos dois tigres que figuram ao lado da cantora, como uma espécie de seguranças, de servos da rainha solitária, nos coloca em face a uma expressão de poder feminino, da subserviência de duas feras que parecem redimidas a autoridade da artista.Lana junto com seus dois tigres se mostra uma mulher elevada, inalcançada e ao mesmo tempo contrasta com a miséria melancólica ao sofrer por amor. A personificação de uma rainha romântica e decadente. O erotismo de Lana também é parte do clipe. A cantora e o modelo aparecem em constante tensão sexual, um jogo que não se concretiza: não existem cenas de sexo no clipe. É possível perceber que em determinados momentos a figura do homem aparece como um fantasma, uma sombra ao lado de Del Rey e até mesmo com a mão na garganta da artista, uma postura feroz, que ao mesmo tempo em que dá amor também é capaz do ódio, do desejo de morte. A figura masculina está sempre presente, sempre na figura do homem com quem contracena como na letra da canção em si. Na música o eu lírico feminino diz: Don’t make me sad, Don’t make me cry É como se a vida dela estivesse devotada ao namorado, como se a felicidade dela não dependesse de mais ninguém a não ser do homem que ela ama. As referências as drogas também são representadas dentro da obra. Lana frequentemente fuma durante os shows, e o cigarro aparece no vídeo inclusive como um sinal gestual da cantora. O clipe pode ser dividido em 3 partes a partir das marcações feitas pelo refrão: na primeira, as cenas são intercaladas entre externas e internas com a artista em seu trono icônico e as cenas externas junto ao modelo. Na segunda estrofe da música, Lana já aparece com outro figurino. De camisola branca, ela aparece numa cama ou disposta de pé em um dos cômodos do palácio. Na terceira parte, ela aparece caminhando em um longo corredor indo em direção a conclusão da narrativa. Essas questões de marcação serão detalhadas na análise das relações do refrão com as imagens. Importante destacar, como visto nos frames abaixo, a forma como a luz é trabalhada sob o corpo da artista, hora deixando-a iluminada, hora sumindo e deixando-a na escuridão. Essa questão do claro-escuro em Born to Die reforça ainda mais o caráter melancólico e barroco de Lana. 6 Em Born to Die, Lana Del Rey busca representar a morte como diz o título da canção. Não há, no entanto, apenas um único tipo de morte representado pela artista. Como já foi dito, ela aparece lânguida, reflexiva, melancólica, como se representasse uma morte ainda em vida. Lana parece ao mesmo tempo, autora e obra, performatizando a dor da composição.

Proximidades da canção e do videoclipe: o refrão visual de Born to Die

O momento do refrão em Born to Die é marcado por uma aceleração na edição. Na primeira execução há a introdução de uma sequência lógica: reviravolta com imagem do teto ogival do palácio, recuo da câmera, abertura do plano para mostrar a artista no trono, expressão confusa no momento em que canta o trecho: “Sometimes love is not enough, and the road gets tough, I don’t know why”. Na canção, é como se Lana estivesse falando diretamente com a pessoa para quem compôs a música, então há cenas de amor em um carro entre ela e o homem de quem fala. Quando a artista canta os trechos:  “Let’s go get highe “the road is long, we carry on, try to have fun in the meantime” Percebe-se um foco sutil no cigarro, ressaltando que a loucura de que ela fala vem das drogas e a diversão, do sexo, assim “matando” em uma única cena dois elementos provenientes do refrão. A performance da artista neste momento fica mais intensa, junto com a interação com a câmera e percebe-se também que o gestual no clipe, como na cena em que o possível namorado de Lana toca a testa dela com as mãos simulando uma arma, o som original da canção se alinha ao gesto feito pelo modelo provocando assim um efeito de sentido. A edição neste momento, em cortes secos, e o clima de tensão sexual tem uma marcação mais intensa. Percebe-se na canção que há diferentes níveis cantados pela artista com ápice na metade do refrão encaminhando para um fechamento marcado e mais lento. É possível constatar que o refrão em Born to Die possui dois momentos:

Parte I Don’t make me sad, don’t make me cry/ Sometimes love is not enough and the road gets tough I don’t know wy/ Keep making me laugh, let’s go get hit/ The road is long, we carry on, try to have fun in the meantime/

Parte II Come take a walk on the wild side, let me kiss you hard in the pouring rain/ You like your girls, insane/ Choose your last words, this is the last time/ Cause you and I, we were born to die/

Lana também se queixa de que “a estrada é longa” e convida a “dar uma volta” pelo que ela chama de “wild side” ou “lado selvagem”. Os verbo “caminhar” é recorrente dentro da canção e na primeira vez em que profere tais quereres, ela está andando em direção ao namorado que a espera no carro. Na segunda execução do refrão, um plano em primeira pessoa nos faz perceber o avanço em uma estrada. A câmera segue junto com o som de violinos, outro ponto em que isto acontece é no início do clipe quando a câmera está ritmada como a “batida” da canção e Lana só aparece em quadro quando inicia-se a parte letrada. O movimento de câmera no início de Born to Die reforça a curiosidade do espectador, pois é possível ouvir sussurros dentro da faixa: uma voz masculina grita algo como: Louder e a artista responde com Hold me, assim, ao acompanhar a trajeto da câmera ela nos leva a dona daqueles sussurros e a ver quem de fato performatiza a música. No único momento em que ela sorri diante da câmera, e faz isso de modo sarcástico e surpreso, na gravação, na letra da música ela diz: “keep making me laugh” e faz mais uma referência as drogas insinuando retirar um “baseado” da boca. 7 A interação de Lana diretamente com a câmera é uma marca durante todo o clipe, mas no final da execução pela segunda vez do refrão, ela gesticula interpretado como a música. “Cause you and I, we were born to die”: a artista aponta para a câmera, aponta para si e perpassa o polegar no pescoço. 8 Na terceira execução do refrão, onde há uma mudança no teor sonoro da música, isto é, a voz da artista fica mais clara com poucas interferências instrumentais, há novamente uma transição, mostrando os elementos arquitetônicos do palácio, e um jogo de luzes que caminha junto com a canção. Lana, enfim, aparece caminhando para uma espécie de redenção num amplo corredor, mais uma vez podemos ouvir o “take a walk on the wild side”, da música. A expressão da artista esboça uma espécie de êxtase, como se estivesse pressentindo que o que há no final do corredor é algo belo, mágico. Se no clipe todo somos sempre expostos a uma luz que faz um jogo de sombras sob o cenário e a artista, quando Del Rey atravessa a porta temos a ideia de um ambiente radiante e então, no momento em que a palavra “die” é pronunciada por Lana, o rosto do seu possível amor aparece, a câmera recua a vemos ensaguentada nos braços do ator enquanto um incêndio consome tudo atrás de ambos. 9 10 Por tudo o que foi exposto através de Born to Die, Lana é uma artista que flerta com o barroco e o nacionalismo. Pois é, dá pra usar conceitos aprendidos na escola e aplicar na música pop. Lady Gaga entende bem disso, diga-se de passagem. A visão da artista sobre o amor é trazida a tona no clipe de forma pessimista como se tivesse sofrido uma grande decepção. No mundo de Lana, amor e morte se escrevem com a mesma tinta, pintando o que todos nós em algum momento já experimentamos: a impossibilidade, o platônico, a ausência mesmo com a presença, a perda de quem amamos:

Os textos podem ser utilizados parcial ou totalmente desde que a fonte seja citada.

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5 comentários em “Lana Del Rey – Born to Die [Análise]

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  1. Adorei a sua análise!! Sou uma pessoa que ama ficar analisando praticamente tudo, e as músicas são uma das melhores coisas para se fazer isso. Amo as duas cantoras citadas por você, Lana e Gaga. Estou fazendo um trabalho de Inglês Instrumental para a faculdade e resolvi analisar/comentar sobre a letra de Born To Die e Monster da Gaga. Seu texto ficou muito rico em quantidades de informações que eu talvez não tenha pensado antes. Agradeço por disponibilizar um pouco do seu conhecimento. Parabéns pelo seu trabalho 😀

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    1. Own, faz um tempo que eu não escrevo, mas vi uma notificação no meu e-mail e vim aqui só pra agradecer! Num mundo cheio de ódio, ler algo assim é um alento pra alma. Obrigado! ❤

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