Lady Gaga – Bad Romance [Análise]

por Emmanuel Guimarães

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Já com dor na consciência de deixar o blog desatualizado, venho aqui tirar a poeira. Dessa vez, a análise é do clipe de “Bad Romance” de Lady Gaga, certamente um dos mais icônicos da carreira dela. É engraçado, assistindo o clipe atualmente, perceber o quanto toda a parafernalha que Gaga usa na direção de arte envelhece rapidamente. Algo que era futurístico, hoje pode ter uma conotação mais trash. Se desse para apontar uma desfasagem em “Bad Romance”, seria sua incoerência temporal, afinal não faz tanto tempo assim que foi lançado. No entanto, “Bad Romance” continua no pódio dos meus clipes pop preferidos e certamente a análise a seguir é uma das mais completas e descritivas já feitas.


A análise a seguir é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida na Universidade Federal de Pernambuco pelo autor deste blog. 


O videoclipe da canção Bad Romance, da cantora Lady Gaga teve lançamento em dezembro de 2009. A faixa é o primeiro single do álbum The Fame Monster, segundo trabalho de estúdio da artista sob a alcunha artística de Lady Gaga. Este clipe musical foi escolhido por representar uma fase de transição da cantora passando para um pop mais conceitual e fiel aos ideais estéticos e musicais da artista. Os clipes anteriores de Lady Gaga, podemos citar a exemplo, “Poker Face”, “Love Game” e “Just Dance”, eram focados em sua apresentação ao público sem uma narratividade representativa como a que é percebida em “Bad Romance”. Algo similar a “Bad Romance” dentro da obra de Lady Gaga, aqui delimitada entre os álbuns The Fame (2008) e The Fame Monster (2009,) está no clipe da canção “Paparazzi”.

A representação de transição da cantora de uma fase para outra da carreira é encenada no clipe. Na sinopse, Lady Gaga é capturada por um esquema de máfia, representando a industria musical, e passa a ser vendida num leilão onde ela se exibe para homens vestidos de preto. Na primeira cena do vídeo, vemos Gaga sentada num trono rodeada por dançarinas e pelos integrantes desta máfia. Não há indícios de temporalidade no videoclipe visto que todas as cenas são dentro de estúdio com espacialidade totalmente preenchida: na há céus nem relógios nem nenhum outro elemento que possa identificar a temporalidade dentro de “Bad Romance”.

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Não há uma ordem em que os personagem se dispõe ao redor da cantora, o que se pode destacar é que os homens aparecem de preto e as mulheres de branco com exceção de Lady Gaga que figura vestida de dourado, peruca loira e óculos com armação que remete a lâminas de barbear. Ela também aparece com o dedo apertando o botão de um reprodutor de mídia sonora e com uma música de fundo de sonoridade metálica e eletrônica não identificada. Quando a canção que dá título ao clipe começa é como se Gaga tomasse um susto e então somos transportados para outro cenário, ao que tudo indica uma casa de banho, onde uma luz varre todo o cômodo e serve como sinal para que os caixões que lá estão dispostos se abram e Lady Gaga e suas dançarinas saiam de dentro deles.

Percebemos 7 caixões no terraço da casa de banho, um deles, o do meio, tem a inscrição Monster com o “T” em formato de cruz e é dele de onde Lady Gaga sai. A inscrição na tela Bath Haus of Gaga também aparece como assinatura no vídeo remetendo a equipe que compõe o departamento de criatividade de Lady Gaga. Com movimentos que lembram o de um réptil e mãos com formato de garra, ela está vestida toda de branco, costelas e coluna marcadas, salto e uma espécie de coroa que cobre os olhos deixando a mostra. apenas o final do nariz e a boca marcada em batom vermelho. Como foi citado, o espaço em que se passam todas as ações no videoclipe corresponde a um ambiente possível no mundo real porém as roupas usadas por Gaga nos colocam dentro de um mundo onírico onde existe certa teatralidade por parte dos personagens. O clipe é solar, as formas dispostas remetem frequentemente a estética egípcia.

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As imagens descritas são intercaladas com tomadas da artista dentro de uma banheira também branca e moderna e outra de Lady Gaga em frente a um espelho catando vestida de preto, óculos escuros e uma coroa em miniatura semelhante a que já foi citada. Importante destacar que no cenário onde se passam as ações, a cor predominante é o branco com contrastes que tangem para o cinza. A iluminação se alterna entre o branco e o amarelo, elementos que parecem jogar a atenção do espectador para as roupas e a performance dos personagens.

Após a saída de Gaga e de suas dançarinas de dentro dos caixões, elas começam a dançar em ritmos demarcados com movimentos para cima e para baixo sobressaindo gesticulações de braço, quadril e pernas. A cantora e as dançarinas parecem encenar uma espécie de monstros que está sedenta por comida após um longo período de hibernação e que clamam ao alto uma resposta para os anseios. É perceptível que a cantora aparece com os olhos grandes, maiores do que o normal em algumas cenas.

Dentro da obra da cantora a marcação dos olhos é algo recorrente. Seja tapando um dos olhos ou dispondo os dedos em forma de triângulo e colocando-os em frente aos olhos, Gaga insinua um “olhar para o mundo através das lentes do pop”. Este gesto em relação aos olhos e ao simbolismo embutido dentro das produções da artista, frequentemente são alvo de polêmicas sobretudo por parte de grupos religiosos que insinuam que a artista faz parte de uma organização mundial que tem como objetivo principal dominar o mundo e submetê-lo a uma espécie de nova ordem mundial. Reforçando o que foi dito na análise de tragetória da artista, este grupo seria intitulado de Illuminatis, ou Iluminados em português. Não evidências da existência nos dias de hoje de um grupo com esses ideais nem da ligação da artista e essas afirmações sempre caem nas chamadas teorias da conspiração e contribuem para a posição mítica dos artistas. Visto que Gaga está em um processo de transição, os olhos grandes podem ser entendidos como olhos abertos para o novo, atenção para o que está acontecendo ao redor.

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A cantora é retirada da banheira por duas mulheres onde é praticamente forçada a tomar um copo de algum liquido. Se pensarmos na garrafa da marca Lex Nemiroff que frequentemente aparece no vídeo como publicidade, podemos afirmar que a bebida ingerida pela artista é vodka. Percebemos assim, que há inicialmente uma espécie de negação e resistência de Gaga a abordagem das duas mulheres e logo em seguida a aceitação. Assim a cantora bebe parte da vodka e cospe a outra em uma das moças e então é levada para apreciação daqueles que seriam seus possíveis licitadores. A resistência de Lady Gaga neste momento é retomada até que as dançarinas arrancam o tecido que a cobre e a colocam exposta aos integrantes da máfia. Importante destacar que há uma intercalação com imagens da cantora disposta em frente a câmera cantando com expressão de dor e chorando.

Bad Romance tem uma canção extremamente dançante, mas não é um videoclipe feliz. Analisando a representatividade do que é perpassado no vídeo, percebemos a sexualização da mulher, a exposição do corpo feminino que será submetido a um preço. A violência com que se debate Lady Gaga em relação ao destino que a aguarda e rapidamente, em uma das cenas, a vemos arrancando um fio de cabelo, comportamento que pode ser associado a distúrbios como a tricotilomania. Bad Romance é um clipe melancólico e doentio.

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Estes elementos somados a expressão de Gaga no vídeos evoca-nos uma matriz melancólica para o videoclipe no sentido de que ela está só, ninguém pode salvá-la do destino que a aguarda.

Lady Gaga então performatiza sua coreografia até que o valor que é mostrado nos computadores que marcam os lances dados chegue ao máximo. É visível uma conduta dúbia de Gaga durante a encenação: é como se ela quisesse ser vendida para a indústria e fizesse tudo para conseguir aquilo, pois em uma das cenas ela se senta e dança no colo daquele que deu o maior lance, e como se não quisesse visto a forma com que ela age até ser leiloada. Se relacionarmos a letra da canção com que é passado no clipe, podemos entender que o “romance ruim” que Lady Gaga deseja não é algo que pode ser vivido com uma pessoa de carne e osso. Gaga não nos fala sobre alguém e sim sobre algo, sobre a fama, poder, coisas que ela quer para si a qualquer preço.

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Um dos, digamos, “momentos de glória” em Bad Romance se dá quando Gaga aprece vestida de preto, paralisada sob uma espécie de chuva congelada de diamantes com os mafiosos sentados formando um círculo ao redor da artista. A partir deste ponto quando “walk, walk fashion, baby, work it! Move that bitch crazy!” começa a ser cantado na canção, vemos Gaga desfilando toda vestida em dourado, com sapatos allien, uma referência e cena de transição da cantora que personifica sua relação com a moda. Gaga aparece transformada, olhar contemplativo, dopada e solitária em um amplo terraço sob pouca luz. Novamente o gesto que mais chama atenção é movimento de “mão de garras”. As imagens são intercaladas entre Gaga desfilando, sentada sob um balcão junto com cenas da artista dentro de uma banheira além da cantora paralisada usando óculos e envolta em argolas metálicas.

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As imagens a seguir colocam um ponto final dentro da narrativa. Gaga aparece vestida em uma pele de urso branco indo em direção a homem que a arrematou. O homem está sentado numa cama de casal bebendo vodka e ele possui uma placa dourada que percorre da maçã do rosto até o maxilar. O homem olha para Lady Gaga com expressão de desejo querendo usufruir do “objeto” que acabou de comprar, enquanto isso a artista se aproxima séria. Esta cena é intercalada com imagens da cantora e de suas bailarinas vestidas de vermelho deitadas no chão sob pouca luz e de closes da artista diante da câmera. Nestes takes é possível ver a agressividade de Gaga batendo no chão durante a coreografia.

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Lady Gaga então tira os óculos, a vemos de costas numa composição em que a posição de mãos se alinha com a figura de dois cordeiros pregados na parede e simula uma arma com as mãos. O cenário onde Gaga estava inicialmente deitada e sob pouca luz agora se ilumina e elas executam a coreografia e a cama onde o “dono” de Gaga estava se incendeia.  A artista então, canta com as chamas da cama em backgroud e as imagens são intercaladas com a performance coreografada e closes da artista na câmera.

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Em posição, Gaga encara a câmera, faz um gesto de mão com o dedo indicador e anelar em forma de triangulo e os alinha com olho esquerdo. Batendo palmas, ela aguarda a conclusão da coreografia por parte das outras dançarinas. A cena final mostra Gaga descomposta com lingerie preta e com machas negras de cinzas, deitada na cama também queimada ao lado de um esqueleto, os restos mortais do seu ex-futuro “dono”.

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Assim, apesar de ter se “vendido” para a indústria, Gaga demonstra que sobrevivendo ao incêndio consegue manter o controle do próprio futuro e se partirmos para esta interpretação há uma postura autoconfiante da artista e de, certo modo, arrogante, em achar que é maior do que um conglomerado tão grande quanto o da industria musical.

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O refrão de Bad Romance e os alinhamentos da canção com o clipe

A repetição do refrão em Bad Romance marca certamente algo que o público fervoroso de Lady Gaga gosta de vê-la perfomatizando: a coreografia. Desta forma podemos delimitar a canção tendo um pré-refrão e um refrão. A saber:

Pré-refrão:

You know that I want you, and you know that I need you/

I wanna a bad, want your bad romance/

Refrão:

I want your love and I want your revenge/

You and me could write a bad romance/

(Oh-oh-oh–oh-oooh!)/

I want your love and all your lover’s revenge/

You and me could write a bad romance/

Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!/

Caught in a bad romance/

Oh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh-oooh-oh-oh-oh!/

Caught in a bad romance.

Assim, na primeira execução do refrão em Bad Romance percebemos a marcação por flashes luminosos e pela coreografia da cantora junto com suas bailarinas. O ritmo acelerado e cortes secos do clipe ganham mais força e as cenas de dança se intercalam com a atuação de Lady Gaga. A batida da canção junto com a performance de Gaga provocam uma tensão e preparam o espectador para o momento em que o refrão se inicia de fato. Para Goodwin (1992) o gancho visual é “extensivo”, uma vez que a imagem é convidativa ao suspense e da geração de uma expectativa em torno da imagem que o artista vai apresentar em seguida (SOARES, 2013, p. 116).

Na segunda execução do pré-refrão percebemos que há a inserção de um grito com os dizeres: “Cause I’m a freak bitch, baby” enquanto Gaga está dançando no colo do homem que deve arrematá-la e novamente percebemos uma tensão na imagem que insinua que a execução do refrão deve acontecer. E assim se segue até o final do videoclipe, ou seja, em todos os momentos em que o refrão de Bad Romance é ouvido Gaga aparece dançando. O reforço visual aliado a música fazem parte de uma estratégia de endereçamento no videoclipe: o refrão da canção por si só já consegue penetrar no ouvinte, a coreografia no vídeo faz o espectador querer aprendê-la. Além disso esta parte instaura um modelo de performance da persona Lady Gaga como dançarina além de cantora e compositora.

A verbalização de sons que não tem um significado gramatical como no começo de Bad Romance onde a artista canta e exalta a própria imagem também constituem um adereço para fácil assimilação da canção e serve como assinatura, uma espécie de demarcação de território muito usada no hip-hop. Desta forma, mesmo que Lady Gaga apareça com o rosto totalmente coberto no inicio do videoclipe, o espectador já sabe, a partir da assinatura dentro da canção que aquele é um videoclipe de Lady Gaga e aquela canção é dela:

Rah-rah-ah-ah-ah-ah!

Rama-ramama-ah

GaGa-ooh-la-la!

Want your Bad Romance.

Assim, percebemos que dentro do clipe de Bad Romance há uma sequência lógica narrativa. O clipe se aproxima do que a música propõe e perpassa elementos que servem como marca tanto da artista como da iconografia do álbum. As matrizes melancólicas dentro do vídeo são instauradas a partir dos movimentos e expressões de Gaga no clipe: violência e sofrimento em face a concretização de um destino: ser consumida pelos padrões e virar uma espécie de objeto da indústria do entretenimento.

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