[Análise] Chained To The Rhythm – Katy Perry

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Não há felicidade sem autoconhecimento, propagam os budistas. “Quem é você, do que você gosta, no que você é bom?”, nos perguntam psicólogos na nossa segunda semana de terapia e nem sempre sabemos responder. Além do tom político, “Chained To The Rhythm”, escrita junto com Sia, é um reflexo e um questionamento melancólico em forma de música pop sobre como vivemos a nossa vida. “So comfortable, we’re living in a bubble, bubble. So comfortable, we cannot see the trouble, trouble”. 

É o famoso “tá bom, mas não tá bom”. Tá confortável vivendo aqui na nossa bolha, tá tão confortável que não vemos o problema do tempo passando e levando junto nosso propósito, sonhos ou que quer que você queira fazer nessa vida. No fundo, há uma voz chamando, mas vai dar tanto trabalho seguir essa voz que é melhor ficarmos onde estamos mesmo. Tá bom, mas não tá bom e no final de semana a gente “coloca nossos óculos cor de rosa e festejamos” para na segunda-feira começar tudo novamente. Recomeçar no trabalho chato, recomeçar nas relações tácitas com pessoas que a gente não quer mais ver nem de longe, recomeçar nos maus hábitos, nos pensamentos de como deveria ser e não é, num lugar “onde nada parece ser bom o suficiente”. Na fuga do “aqui e agora”, como diz Eckhart Tolle. A gente “aumenta o som, porque é a nossa música favorita que tá tocando” e a gente “dança com a distorção”, a gente “coloca para repetir, tropeça por aí como zumbis bêbados pensando que somos livres”.

“Chained To The Rhythm” é uma crítica de si, que transforma a música numa analogia perversa, como uma droga, como um sistema falho, como alternativa que usamos para fuga da própria realidade, assim, a palavra “ritmo” poderia ser substituída por tudo aquilo que te impede de ter a vida que você quer agora. É óbvio que a little party never kill nobody e a função da música como arte é nos tirar da realidade por um momento, alimentar nosso espírito e nos tornar mais fortes para lidar com o mundo real, mas até que ponto esse mundo real é real de fato pra você? Faz aí o exercício, completa a frase: “Chained to The….” e depois se pergunte como quebrar as correntes. O caminho do autoconhecimento não é fácil e nem instantâneo. Se conhecer é lidar com aquilo que não gostamos na gente, e os muros que nós construímos ao redor de nós mesmos são tão grandes e penosos de derrubar quanto o que os Estados Unidos querem construir na fronteira com o México. Não há ONU, não há nações, não há líderes religiosos, revoluções e presidente eleito que possa enfrentar nossas rochas e sombras internas por nós.

 Considerações sobre o videoclipe

Katy Perry tem lá sua fama de “doceira”. Videoclipes coloridos, fofinhos e tudo que remete ao universo infantil. No entanto, em “Chained To The Rhythm”, as paisagens bonitinhas  da cidade ou parque de diversões fictício Oblivia (palavra em latim que quer dizer esquecimento) servem pra dar vida a um cenário bem Black Mirror e assustador: o momento atual dos Estados Unidos e também, como dito anteriormente, a forma como vivemos hoje. Atentemos a alguns elementos que certamente nos são familiares:

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De cima para baixo, algo que muitas vezes é motivo de discussão na internet: os limites, e dilemas das selfies. Da segunda imagem para baixo, a montanha russa com lugares separados por gênero, é colocada como metáfora das redes sociais e da aprovação alheia que buscamos por lá (perceba a frase “LOVE ME” na parte superior). Na última foto,  quando a câmera em primeira pessoa entra no túnel, os símbolos que vemos são perfeitamente reconhecíveis: os botões do Facebook.

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Seguindo a mesma sequência, homens com cabeça de bolha (Katy Perry pode ser vista no canto esquerdo da foto) conduzem um casal para dentro de uma mini casa. Assim, fica clara uma crítica aos modelos atuais de família compostos por homem e mulher e o isolamento que dificulta a saída da bolha e a incorporação de novas ideias. A flor com espinhos é um elemento icônico da representação das falsas aparências: nem tudo que é bonito e agradável é capaz de nos fazer realmente felizes e ainda pode nos machucar. A inovação se dá pelo fato de que essa mesma flor tem sua haste feita de arame farpado que é geralmente utilizado em cercas. Falando em cercas, na última foto vemos o famigerado muro que também foi usado durante a performance da artista no Grammy. A inscrição “Safe Trip” ironiza as condições dos imigrantes que tentam cruzar as fronteiras dos EUA e que muitas vezes acabam morrendo antes de entrar em território americano. Não preciso nem comentar o que pode acontecer quando esses mesmos imigrantes conseguem botar os pés no país de Trump, né? Além disso também é evocada a ideia da guerra como algo realizado por diversão.

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No começo, a sensação é de que Katy é a personagem que se encontra, digamos, “mais desperta” dentro de toda a situação. Ela parece questionar algumas coisas, mas mesmo assim segue. Quando Skip Marley aparece em cena quebrando a levada natural da música e dizendo que “Esse é o meu desejo. Romper as barreiras para conectar, inspirar […} O tempo está contado para o império. A verdade que eles alimentam é fraca […]”  o artista parece ser aquele vem para salvar a todos, mas o recomeço do refrão chiclete da canção impede que todos saiam do estado de transe.

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A partir deste ponto, podemos dizer que Katy se encontra em vias de acordar de todo o sonho e perceber que, assim como a maioria de nós, ela estava na falsa ideia de movimento mas sem conseguir sair do lugar.

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E agora, toda a felicidade e deslumbramento da chegada a Oblivia, se transforma numa descoberta de algo aterrador.

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“Chained To The Rhythm” é um clamor para o acordar social, mas se você preferir, também pode interpretá-ala como como um convite ao despertar interno.

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