Amy Lee – Speak To Me

Amy-Lee

A maternidade muda uma mulher de uma forma que os homens nunca vão saber como é. O formato do rosto de uma mãe recente se altera, fica sereno, apesar das longas noites sem dormir com o bebê chorando. Não é algo que possa ser expresso em palavras, mas quem tem os olhos treinados sabe o que estou falando.  Não estou dizendo aqui que toda mulher deve engravidar para se tornar divina, etérea ou dotada de uma capacidade ou dom especial, apesar de eu achar que toda boa mãe carrega algo a mais dentro do coração. Também não estou enaltecendo os laços sanguíneos e menosprezando a adoção, não, porque ser mãe é mais do que carne. Falo de Ser mãe, capital S. Agora, só pra eu terminar de me explicar antes de começar a análise: se você não quiser ter filhos, tá tudo bem e você não é menos por isso.

Conheci o Evanescence aos 15 anos, hoje tenho 25. Na época do colégio, “Going Under”, “Bring Me To Live”, “Everybody’s Fool”, “Call Me When You’re Sober”, “Lithium”, “Good Enough” gritavam acusações, pedidos de socorro, desilusões amorosas e autossabotagem. Uma voz que parecia pedir socorro e que agradava aos nossos ouvidos rebeldes com a dor transformada em música. Saudades daqueles tempos. Para um nostálgico, até a própria dor é lembrada com prazer.

Em “Speak To Me”, Amy Lee se acalmou, apesar da canção ser tema de Voice From The Stone, longa de suspense/terror que deve chegar aos cinemas em breve.   Já não é mais “me acorde por dentro, chame meu nome e me salve da escuridão”. Amy se coloca agora como a protetora e diz claramente para o filho: “fique calmo meu amor, eu retornarei para você. Por mais distante que você se sinta de mim, você não está sozinho. Eu sempre estarei esperando. E eu sempre estarei olhando você”. Não é mais “por favor, me perdoe, mas eu não estarei em casa de novo”, na súplica agonizante que é “Missing”. Agora é “eu sinto você empurrando tudo através de mim. Nessas paredes, eu escuto as batidas do seu coração, e nada nesse mundo pode me impedir de voltar para você”, numa clara referência à gestação e a resposta ao choro da criança. “Speak To Me” é a materialização sonora do amor verdadeiro, e entenda-se por amor verdadeiro aquele que é incondicional.

No entanto, a essência estética do clipe é mantida, só que de uma perspectiva solar, iluminada que remete à fotografia de Melancholia (2011) de Lars von Trier. O figurino medieval do videoclipe nos transporta para um conto de fadas. Amy nunca esteve tão radiante a ponto de ofuscar as joias que usa, joias, aliás, que nunca a vi usando. O clipe é interessante no sentido de perceber como as referências biográficas são diretamente colocadas em um videoclipe, como vemos nas cenas de Lee com filho. “Ao cantar uma música, trata-se de alguém cantando e “vivendo” as ações existentes na letra. É neste sentido que podemos perceber como as canções podem ser apreendidas através de leituras biográficas e, assim, estender uma reflexão sobre a “sinceridade” no cantar”. (SOARES, 2012; p. 3). É importante destacar questões icônicas da religiosidade presentes no clipe. Na sequência de imagens abaixo, convido o leitor a pensar qual famosa história é reencenada nestas tomadas específicas do videoclipe:

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Segundo o catolicismo, o anjo Gabriel vem avisar a Maria que ela seria mãe do filho de Deus. Perceba que o clipe começa em preto e branco e ganha cor após Amy ver a estátua do anjo e logo atrás do vestido longo azul, a criança aparece.  Destaco ainda os ganchos visuais da artista boiando na água, como uma referência a um eu anterior: a antiga Amy que ainda clamava para que alguém a ouvisse. A criança do clipe corre e parece levar Lee para outros ambientes que ela própria desconhece.

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Uma ansiedade residual em alguns momentos parece tomar conta da cantora que parece perdida e sozinha, mas tudo fica bem quando ela vê o menino. Nada é sobre Amy Lee nesse clipe, é tudo sobre o filho dela num cenário que parece pertencer a outro plano, dando a sensação de plenitude e que todos somos imortais de alguma forma. No final, a sequência Anjo-Amy-Criança é retomada, sendo o Anjo e Amy apresentados em preto e branco e a apenas a criança em cores com o entorno em p&b, como sendo aquele que traz a cor para o mundo de Lee. Apesar da música ser cantada sempre com ela se referindo a si ou o filho, no final percebemos que a última frase nos coloca em contato com um Nós parental: o marido de Amy não está no clipe, mas acabou sendo incluído quando ela faz, no último minuto, o seguinte pedido: “Fique calmo meu amor, Nós retornaremos pra você”.

Em “Video Games”, Lana Del Rey diz que “o mundo foi feito para dois e que a vida só vale a pena se alguém estiver amando você”. Lana pode até dizer, mas Amy Lee nos prova a veracidade dos fatos.


Referências

SOARES, Thiago. Britney Spears: O Corpo como Estratégia de Visibilidade no Videoclipe. Recife: XIV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, 2012.

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