O amadurecimento poético de Lana Del Rey em “Lust For Life”

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Queria estar morta é o meme mais famoso de Lana Del Rey. Ele surgiu após uma entrevista da artista para o jornal The Guardian em 2014. “E não há remédio para as lembranças. Seu rosto é como uma melodia, não sairá da minha cabeça. Sua alma está me assombrando e me dizendo que tudo está bem, mas eu queria estar morta” diz a letra de “Dark Paradise” pertencente ao disco Born To Die (2012).  O desejo de morte de Lana é algo que percorre sua obra desde o início da carreira, o que é perceptível no título do disco de estreia, traduzido em português como “nascemos para morrer”, apesar da morte encenada ser simbólica e estar ligada muito mais ao fim de relacionamentos, a pequenas mortes internas acumuladas pela vida, do que a perda fisiológica da própria vida. Engraçado que após falar que desejava estar morta na entrevista, o trecho de “Dark Paradise” parece fazer mais sentindo e chega até a nos assustar se fomos refletir sobre o quão literal aquela canção  pode ser.

Em “Blue Jeans”, nos deparamos com a visão pessimista do amor que, segundo a letra, é um sentimento ruim e que machuca. “National Anthem” instaura uma relação conflituosa e nos apresenta os problemas de um romance jetset, sem muitas regras e, como sempre, sem futuro. O clipe de “National Anthem” também não ficou longe da proposta da canção, mostrando o suposto triângulo amoroso composto por Jackie Onassis, John F. Kennedy e Marilyn Monroe. O videoclipe ainda se aprofunda em questões políticas, mostrando um John Kennedy negro insinuando um apoio da artista ao ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.  O otimismo de Lana em “Born To Die” é bem discreto e aparece em “Summertime Sadness”, onde ela se mostra disposta a continuar mesmo que a pessoa que ela ama eventualmente vá embora.  Poderia seguir por “Ultraviolence” e o seu “ele me bateu e pareceu um beijo” ou para o “Honeymoon” quando Lana diz que “está indo mais fundo e mais fundo, ficando sombria e mais sombria, procurando por amor em todos os lugares errados”, em “The Blackest Days”, mas todos já entenderam que Lana não é das artistas mais happy shine people da nossa era. No entanto, ao lançar “Love”, primeiro single do disco “Lust For Life”, foi possível notar uma Lana Del Rey diferente, madura, não menos apaixonada e intensa, mas com uma visão pacífica do amor. No dia 19 de abril, a faixa título do disco chegou a todas as plataformas de mídia e a canção seguiu a mesma linha vivaz de “Love”.

“Lust For Life” é uma balada em colaboração com o gênio da melancolia erótica, The Weeknd, cuja voz casa perfeitamente com a de Del Rey. Para mim, The Weeknd é a versão masculina de Lana, não só pelo espírito mas pelas influências do R&B e hip hop. Tanto a canção como o trailer do disco, fazem referência a Peg Entwistle (foto abaixo), atriz de Hollywood que cometeu suicídio pulando da letra H do sinal de Hollywood em setembro de 1932 e que hoje é conhecida, segundo a lenda, como “o fantasma da letra H” e  daí você já entende o motivo de Lana aparecer transparente no album trailer.

Essa correlação do disco com uma história trágica atrelada a iconografia hollywoodiana a Peg-Entwistlequal Lana sempre teve uma obsessão, dá muito pano para manga da artista, mas o significado dos 7 planetas, dos elementos que entram na panela, do telefone flutuando e de todos os outras coisas colocadas de propósito no vídeo, são tema pra uma outro texto. O que interessa aqui é que Lana entrou numa nova era, digamos, mais feliz e motivacional, a contragosto de alguns fãs que preferem a artista mais sombria como no início da carreira e sem o largo sorriso da capa do próximo disco.  Não, Lana não vai entrar na era “Firework” ou “Born This Way” , até porque, como dito anteriormente, apesar do conceito mais “de bem com a vida”, Del Rey tem um mondo muito particular de demonstrar a própria felicidade e a história de Peg Entwistle não nos deixa mentir sobre isso. Além disso, “Lust For Life” também é o título de um filme da década de 50 que conta a história de  Vincent Van Gogh, sua paixão pela pintura e, adivinha só, sua vida cheia de de relacionamentos problemáticos. Sounds familiar. 

Se em “Young and Beautiful”, só meados de julho possuíam noites quentes de verão, em “Lust For Life”, o mês de julho da independência americana agora dura para sempre. Se em “Ride” legal mesmo era viver rápido e morrer jovem, agora não parece mais certo que os bons percam a vida tão cedo.  Se em “Summertime Sadness” Lana implorava para que a pessoa que ela ama a beijasse antes de partir, em “Lust For Life”, essa pessoa parece ter retornado mais interessante do que nunca. Se antes reinava o fatalismo do “nascer para morrer”, agora a paixão pela vida sobressai e não há mais noites, apenas um céu azul eterno. Se antes o amor não era o bastante e a estrada ficava difícil de caminhar, agora há o entendimento de que somos os mestres de nosso próprio destino, capitães de nossas almas e não há como fugir disso.

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