Gestualidade, voz e cenário em Lana Del Rey e Lady Gaga: o corpo melancólico

The Weinstein Company Pre-Oscar Dinner presented in partnership with Chopard, DeLeon Tequila, FIJI Water, and Lexus at the Montage, Los Angeles, America - 27 Feb 2016

O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco,


Cada faixa musical está inserida num contexto maior, o de gênero musical. Assim, as expressões corporais que decorrem de uma canção, são atreladas a uma instância genérica. Para ficar claro, toma-se como exemplo o público de heavy metal que nos shows pulam, batem cabeça e gritam as letras das canções. Ao contrário dos roqueiros, aqueles que frequentam shows de funk geralmente rebolam, dançam uns com os outros e até tem uma coreografia para as músicas que são tocadas. Desta forma, um videoclipe pode aderir as corporalidades de gênero e vice-versa.

Num show de Lady Gaga, ou mesmo em vídeos de fã, é comum a encenação da coreografia dos videoclipes, já quando se trata de Lana Del Rey, podemos comparar a um show de MPB onde não vemos coreografias, porém mesmo com o corpo parado o público responde aos impulsos sonoros da canção. Chorar ao ouvir uma múaica, o olhar atento ao artista, mover-se de um lado para o outro também são questões que devemos levar em consideração no campo das gestualidades.

Mesmo com o ritmo dançante característico da musicalidade de Lady Gaga, nas performances da artista ao vivo, a cantora chora, se emociona ao falar com os fãs e se vale de muitos elementos da teatralidade, aparecendo ensanguentada, jogando-se no chão ou fazendo do próprio show uma espécie de musical que vai do alegre ao muito triste. Já quando falamos de Lana Del Rey, percebemos a corporalidade da artista principalmente nas suas expressões faciais. Muitas vezes o olhar parece perdido, a cantora se move lentamente e passeia pela contemplação e pela sexualidade, levantando o vestido e rebolando até o chão e, em algumas vezes, flertando com um dos músicos da banda. Assim, o corpo responde minimamente a música e no videoclipe não seria diferente.

Na dinâmica gestual, inclui-se também a oralidade, visto que a voz de uma artista também transmite emoções, identifica uma idade, sotaques, trazendo a tona uma marca que possui uma história. Desta forma, é possível identificar nas canções particularidades biográficas do artista em questão mesmo que a faixa musical não tenha sido de autoria do intérprete. Assim, concluímos que o ato de cantar se relaciona com a autenticidade do músico que deixa transparecer sua vida durante a performance quer ele esteja apresentando uma composição própria ou de terceiros:

O primeiro ponto generalizante que podemos tomar na apreensão da voz na cultura pop é que ouvimos expressões pessoais dos cantores – mesmo, talvez especialmente, quando eles não estão cantando suas próprias canções- de um modo que um cantor clássico, até uma estrela dramática e “trágica” como Maria Callas, não faz. [grifo do autor] (FRITH apud SOARES, 2013, p.163).

Desta forma, cantar não diz respeito a apenas impelir sons, mas ao um conjunto de voz, gestos faciais e corporais:

A discussão em torno da forma com que podemos problematizar a questão da voz no videoclipe pode se delinear na forma com que o clipe, por exemplo, iconiza esta voz do artista protagonista do audiovisual. É de fundamental relevância classificar a voz de quem canta e ver de que forma os aparados midiáticos sintetizam imageticamente esta voz. Gritos, sussurros, especificidades vocais podem ser configurados imageticamente através de movimentações de câmera, recursos de edição ou registros de gestuais do artista (SOARES, 2013, p. 165).

Pelo exposto, Gaga e Del Rey possuem características vocais que hora se aproximam e hora se distanciam. Enquanto Lady Gaga possui um voz, digamos, mais “para fora”, Lana aparece com algo internalizado, intimista. Quanto as variações de tom, ambas passeiam entre o grave e o agudo em boa parte de suas produções, tendo demarcado territórios de tal forma que é possível reconhecer uma música mais aguda ou grave de ambas as partes. Há uma tensão permanente em Del Rey, uma melancolia reverberante enquanto em Gaga notamos um certo desespero gritado, como alguém que está agonizando de dor. Parece-nos que Lana canta para si, só que faz isso de forma a deixar que os outros escutem e essa introspecção é visível no modo como ela dubla nos vídeos, sempre com um gestual lento e contemplativo o que também é levado para os palcos. Por outro lado, Gaga parece querer exprimir sua dor para o mundo e faz isso aliando voz a coreografias marcadas: ela canta e move-se de tal forma a querer que alguém chegue, acabando assim com um estado de desconforto.

A essas demarcações vocais podemos atribuir o conceito de “estetização vocal” visto que a forma como um artista canta uma música pode ser resultado da construção de uma imagem. Se tomarmos as características elencadas anteriormente, podemos dizer que estamos diante de duas personagens: uma lânguida e intimista e a outra teatral e explosiva. Assim caracterizadas e descritas, não é necessário que neste parágrafo seja dito a quem pertence a languidez e a explosividade, por exemplo. Não podemos ignorar também o caráter biográfico nas personas artísticas visto que a atenção deve estar voltada para a história contada por aqueles personagens que na maior parte das vezes serve como canal para disseminar a arte.

A musicalidade de ambas – voz e corpo, aparece ambientada em espaços e paisagens distintas. É preciso salientar primeiro que assim como a performance, a canção também traz cenários inscrito. Ao ambiente em que um artista performatiza uma música em um clipe atribuímos o conceito de “cenário”. Mais uma vez nos vemos atrelados a questões de gênero musical. Assim como foi dito nas inferências sobre gestualidade, os espaços onde a música está alocada dentro de um clipe dizem muito do gênero ao qual pertence a canção. Importante ressaltar que quando falamos em ambiente e cenário não estamos nos referindo necessariamente e somente a espaços físicos mas também as paisagens que são evocadas na mente de quem escuta uma faixa musical.

Se pensarmos no hip hop, por exemplo, a audição de uma canção deste gênero pode nos remeter a um contexto espacial urbano de periferia, dos becos e ruas do Brooklyn. Por outro lado também podemos criar novos ambientes baseados ou não nas nossas memórias e pensamentos mais oníricos. Interessante notar que alguns tipos musicais estão praticamente indissociados da questão de cenário fazendo com que praticamente, canção e espacialidade se completem. Executar Vassourinhas, por exemplo, no meio do ano pode gerar um certo estranhamento em relação a canção visto que não é época de carnaval, que não existem blocos na rua nem o ar empachado – para os que não gostam, ou libertador e de alegria – para os que gostam de carnaval.

Quando a articulação de espaços físicos perceptíveis no mundo real em videoclipes, é notada uma estratégia de endereçamento do produto videoclipe. Assim, ambientar uma canção de hip hop em ruas do Brooklyn, tomando base o exemplo que já foi dado “é antes uma estratégia de endereçamento do próprio artista e a construção de uma dinâmica de autenticidade” (SOARES, 2013, p.171)

Apropriando-se dos conceitos e trazendo para os objetos em questão, é perceptível e será comprovado na análise de videoclipes (aqui e aqui), uma junção entre espaços geográficos reais e ambientes oníricos. O fato é que, Lady Gaga assume a personagem por mais tempo do que Lana assume, isto é, visto pelas roupas da artista concluímos que ela (Gaga) tenta juntar um mundo de sonhos com a realidade até mesmo fora dos videoclipes e das performances nos shows.  Se nos dirigirmos para a composição do cenário em Gaga vemos espaços futuristas, abertos e preenchidos com corpos que dançam e percorrem todo o lugar. São em geral e sobretudo nos videoclipes vindos dos trabalhos mais recentes da artista, ambientes de terrores que bebem das fontes do rock.

Os cenários de Lana Del Rey estão mais próximos da esfera do geograficamente possível. Ambientes que são reconhecíveis dentro do mundo real adornados com uma estética retrô vinda principalmente da direção de arte e da pós-produção dos clipes. A legitimação da cantora como uma artista indie-pop e que tem uma grande influência da surf-music nos leva para litorais, remetendo ao mar e lugares paradisíacos.

 


SOARES, Thiago. A Estética do Videoclipe. João Pessoa. Editora da UFPB, 2013.

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