[RESENHA] Tears on the dance floor: O After Laughter do Paramore e saúde mental

From left: Taylor York, Hayley Williams and Zac Farro of Paramore, in Nashville, Tenn.

“Here in the darkness i know myself” diz Amy Lee em uma das linhas da faixa “Lithium” pertencente ao “The Open Door”, álbum do Evanescence lançado em 2006. Dez anos depois, ainda lembro dessas palavras porque elas fazem todo sentido do mundo e eu nunca conheci ninguém que tenha se reerguido durante momentos de felicidade ou quando tudo estava bem. É sempre na escuridão que a gente pode se conhecer melhor e ninguém pode me convencer do contrário. Se a natureza mantém a depressão, a tristeza e a melancolia em nós é, certamente, porque há utilidade.

Durante os últimos anos (talvez eu esteja sendo injusto, vai) aprendi a expor menos meus sentimentos negativos para os outros porque, na minha concepção, os “amigos” que eu tinha ao meu redor era evoluídos demais, sabiam lidar com os próprios problemas, fugiam de “pessoas negativas” como eu, diziam que “eu tinha que me valorizar”, “que a guerra que eu estava vivendo era só minha” e eu permanecia como cego em tiroteio. Bom, talvez eles estivessem todos certos mesmo e eu levei tão a sério o fato da “guerra ser só minha” que eu decidi seguir nela, advinha, sozinho mesmo. Eu não queria mais ser um peso na vida de ninguém e não queria mais me sentir culpado por ser um estorvo frágil para os outros ou viver num grupo onde eu causava problemas e meus defeitos eram mais desenvolvidos do que as minhas qualidades.

Minha conexão com o “After Laughter” veio daí, de não saber como lidar com paramore-after-laughter-2017-2480x2480o mundo, veio desse momento onde eu não tenho certeza sobre o futuro, onde eu me encontro perdido, procrastinando, frustrado, sem saber em quem confiar e odiando todas escolhas que fiz até agora. Que peso, né?  Esse disco me diz que eu não estou só nisso e que existem outras pessoas lutando as mesmas batalhas diariamente muitas vezes sem nenhum apoio. As campanhas dos órgãos competentes sempre enfatizam a procura por profissionais de saúde mental no caso de algum problema que esteja sendo difícil para um indivíduo encontrar uma solução sozinho. Não querendo desmerecer o quanto um psicólogo ou psiquiatra se esforçou para chegar onde está, mas o acompanhamento especializado desses profissionais no nosso país ainda é muito caro e isso se deve também ao fato de que as feridas emocionais e a subjetividade dessas questões são frequentemente confundidas com preguiça ou frescura na nossa sociedade. As pessoas se compadecem muito mais com uma doença que precise de uma cirurgia para a cura do que com a ansiedade, por exemplo. No entanto, se você pode bancar um tratamento psicológico, não exite em ir. Pode ser difícil marcar a consulta e comparecer de fato, mas se você consegue vencer este primeiro obstáculo, pode ter certeza do grande passo que está dando.

O que eu mais gosto no “After Laughter” é que ele permite que a gente sinta coisas ruins. Nós não precisamos ser positivos o tempo todo, engolindo sapos, varrendo emoções pra debaixo do tapete e se culpando porque “mágoa, ódio e raiva causam câncer”. E o mais comum é que a gente vá jogando essa tranqueira emocional pra um buraco fundo e escuro dentro da gente porque não queremos ser uma “pessoa tóxica” para os outros mas, com isso, acabamos virando uma pessoa tóxica pra nós mesmos.

Se os seus amigos ou a pessoa que você gosta se afastam de você por algum problema que você esteja passando, é aquele clichê, né? Eles nunca foram seus amigos e essa pessoa nunca gostou de você.  Ah, e não estou dizendo pra ninguém ser babá de ninguém, apenas dar o mínimo de suporte possível. Low key, no pressure, just hang with me and my weather

O “After Laughter” nos ensina a abraçar nossa tristeza, a levá-la como algo que faz parte da nossa existência e não como uma bola de ferro sob nossos ombros. O disco não é uma apologia, não faz uma ode e nem glamoriza a depressão, mas é sim uma forma de encararmos a nós mesmos e o que sentimos.

1 – Hard times

“Hard Times” é um exemplo do motivo pelo qual defendo que devemos sempre prestar atenção no que o artista está dizendo na letra das músicas. Se você não tem um nível avançado de inglês, se não consegue entender o que o artista estrangeiro diz numa língua que não é a sua, é interessante que você vá atrás e procure em sites como o Vagalume que oferece traduções melhores que o Letras Terra. Nem sempre uma canção triste vem com melodias indutoras de um estado de prostração.

Quem acha Adele o maior ícone da música pop deprê certamente não escutou as músicas de Lady Gaga, por exemplo, que são tão tristes quanto ou até mais. É claro que as duas tem estilos muitos diferentes, só que Gaga, assim como o Paramore em “Hard Times”, disfarça a dor com batidas que nos fazem dançar, clipes coloridos, coreografados,  com diversão e tudo o que lembra um estado de espírito feliz. Esse comportamento dos artistas em relação à própria música e a materialização da imagem da canção no videoclipe liga-se diretamente com a forma que agimos na sociedade que não admite que a gente exponha nossas fraquezas, assim, vestimos uma capa colorida e saímos por aí sorrindo mesmo com todo o vazio por dentro.

Por outro lado, os compositores podem estar mais interessados no arranjo, na quantidade de batidas da canção, que pode gerar maior empatia e consequentemente um maior retorno financeiro, além disso, o contraponto entre letra e melodia também torna a canção bilateral fazendo com que o ouvinte possa consumi-la em qualquer estado de espírito.

“Hard Times” é uma grande tiração de sarro com os problemas diários que fazem a gente se questionar se estamos mesmo no caminho certo.

2 – Rose-Colored Boy

As vezes pode ser muito chato quando estamos tristes e alguém possuído pelo espírito de Buda chega e diz pra gente que temos que “olhar para as coisas boas da vida”, que “não somos uma causa perdida” e que “tudo vai passar”. Será que essas pessoas sabem que não há profundidade nenhuma quando elas tentam dar esse tipo de ajuda e que a boa intenção delas pode piorar ainda mais as coisas? “Rose-Colored Boy” conversa com a gente a partir da perspectiva de quem está sofrendo com algum tipo de ansiedade, tristeza ou, mais grave, uma depressão.

Temos que assumir que nós não somos responsáveis por mudar o outro e 99% do que a gente diz pra tentar reerguer alguém pode ser em vão, por isso, a melhor coisa que podemos fazer é apenas ouvir e fazer companhia sem julgamentos e respeitando o tempo da outra pessoa. Interessante que a faixa faz referência direta a “Hard Times” logo no início: a “little rain cloud” agora retorna  e retorna não apenas como uma nuvem, mas um temporal quando Hayley utiliza a palavra “weather” na introdução de “Rose-Colored Boy”

3 – Told you so

A melhor palavra para definir “Told You So” é orgulho. E o orgulho nessa canção vem das duas partes, tanto de quem canta como pra quem a música é endereçada. Dizer  “odeio dizer que te avisei” e acusar que “eles adoram dizer que me avisaram” coloca respectivamente o eu lírico em posição de superioridade e de julgamento do outro ao mesmo tempo. Na verdade, ambas as partes amam estar certas de que, por exemplo, uma atitude futura do outro poderia dar errado e que no final acabou realmente dando. No entanto, quem diz “i hate to say i told you so”  tenta forçar, como dito anteriormente, uma certa superioridade: você ama dizer que me avisou, enquanto eu, mais evoluída, odeio falar isso porque sou melhor do que você. Muito provavelmente Hayley Williams e Taylor York, compositores de “Told You So”, se uniram contra alguém nessa canção e não contra alguém comum, mas alguém igual a eles.

4 – Forgiveness

As pessoas entram na nossa vida e, as vezes, acabam saindo dela deixando uma ferida muito grande aberta. Pedir desculpas é algo nobre do ser humano, mas só isso pode não bastar. Na letra, é repetido um ditado (pode ser chamado assim?) que diz que “perdoar não é esquecer”. Ainda tenho dificuldades em compreender isso. É possível dar o nosso perdão genuíno a alguém e apagar da nossa memória tudo de ruim que ela nos fez? Querendo ou não, ainda não e possível deletar do nosso cérebro situações que nos marcaram muito. “Forgiveness”  é uma forma de mostrar humanidade, mostrar que a gente não é um robô e que podemos sim não querer perdoar alguém e que não precisamos nos culpar por isso, afinal, se for para perdoar e sempre que puder jogar o passado na cara do outro, é melhor guardar seu perdão.

5 – Fake Happy

Nem seria preciso fazer uma resenha dessa porque o álbum é tão literal e as metáforas são tão inteligíveis que o óbvio não precisar ser dito. No entanto, trazendo para as entrelinhas da canção, “Fake Happy” fala que nós precisamos prestar mais atenção naquela pessoa próxima que a gente sabe que está enfrentando algum problema e que se esconde demais para não demonstrar fraqueza. Será que ela está lidando bem de fato com a situação? Será que ela não precisa conversar ou será que ela está fazendo um “ótimo trabalho em fazer com que a gente acredite que ela está bem”?

6 – 26

Todas as faixas anteriores a “26” são duais, uma briga do eu lírico com a negatividade: letras tristes e batidas alegres. Só que nesta faixa, tudo vem a baixo e a vulnerabilidade vem à tona. O interessante é que mesmo com melodia e letra num tom melancólico, “26” se mostra com uma das (a outra é só, e somente só “Grudges”) canções mais otimista do disco quando é dito: “segure-se na esperança, se você tem, não largue ela por ninguém”.

7 – Pool

“Pool” nos trás de volta ao funky com uma descrição completa de um relacionamento amoroso. Fala-se em “segundas chances” e logo vem à nossa cabeça os famigerados chifres né, não? Na canção, ele é “a onda que ela não consegue domar” e que se ela sobreviver a um mar tão agitado, ela vai “mergulhar de volta” porque “não gosta de desistir”. É óbvio dizer isso, mas relacionamentos são muito complicados. Quando vale a pena perdoar alguém? Quando é melhor desistir? E se tratando de uma pessoa com um poder tão grande sob nós (‘cause no one breaks my heart like you) como perceber que não estamos nos deixando levar? Essa canção me traz muitas perguntas porque ela é uma grande dúvida pra mim.

8 – Grudges

Guardar rancor toma muito da nossa energia e, se você percebe que a outra pessoa vale a pena, é melhor tentar parar de se perguntar e pensar porque deu tudo errado antes e seguir em frente. Se ambos estão com vontade de deixar o passado no passado, o que impede de tentar?

9 – Caught in The Middle

“Cught in The Middle” é tão direta que chega a assustar. “Não posso pensar em envelhecer porque isso me faz querer morrer”, tipo, what? Assusta porque se você está passando ou já passou pela crise dos 20 e poucos anos e vê todos os seus amigos casando, tendo filhos e comprando carros, não há como fugir de se sentir velho. Mas será que é motivo suficiente para querer morrer? No caso, esse desejo de morte na canção é literal? Quando as matérias recentes feitas com Hayley Williams relatam uma certa luta contra depressão, acredite, não é brincadeira e o “After Laughter” comprova isso. Ao passar por um período sombrio nas nossas vidas, é natural que fiquemos presos em um lugar que não é nem tanto pra um lado e nem tanto para o outro, mas em cima do muro morrendo de medo e não é tão simples sair de lá. A grande mensagem (quase um mantra) dessa faixa é quando é dito “eu não preciso de ajuda, posso me sabotar sozinha” e nos envolve na seguinte reflexão: se nós mesmo já nos colocamos para baixo, que tal ficarmos apenas com essas vozes autodestrutivas e esquecer que o mundo nos derruba o tempo todo?

10 – Idle Worship

Essa faixa é aquela que, ao começar, você não dá nada. Demorei a parar e escutá-la, pois o começo não me agradava, mas no momento que dei uma chance e a canção foi evoluindo, ela se tornou mais uma boa canção do disco, apesar de não ser uma das minhas preferidas.  “Idle Worship” nos diz que o Paramore não vai nos salvar, afinal, eles só podem nos dar uma forcinha com a música e que a adoração às pessoas famosas não é algo saudável. De youtuber a Lady Gaga, todos são humanos e imperfeitos e o pedestal que colocamos os artistas é algo perigoso e beira ao surreal.

11 – No Friend

A canção mais estranha do Paramore, certamente. O “After Laughter” introduz na banda alguns elementos misteriosos, como o “Carlos” no final de “Fake Happy”. Sendo sincero, esses sussurros me dão muita agonia e sempre passo essa música que mais parece um interlúdio, logo, vou ficar devendo essa.

12 – Tell Me How

“Tell Me How” é a minha queridinha. É suave, dolorida, vulnerável. Ela representa o cansaço pra recomeçar, o se importar com o outro que insiste em responder com  silêncio e indiferença. Em determinados momentos ficar calado não diz tanto assim e a gente realmente precisa falar senão há um risco muito grande da bagunça virar um pandemônio sem freio.

O “After Laughter” é o melhor disco que eu ouvi nos últimos 10 anos desde o “The Black Parade” do My Chemical Romance. Não há, claro, uma conexão entre os dois e esta é apenas uma referência para a minha lista de melhores álbuns. Só quem estiver na mesma sintonia do “After Laughter”  vai compreendê-lo e eu consigo me ver inteiramente nele. Dançar em meio aos meus problemas tem sido terapêutico e através das faixas a sensação de solidão é amenizada. Assim como o Paramore sobreviveu e nos deu uma obra tão linda, espero que você que me lê supere o que quer que esteja passando neste momento. Uma coisa é certa: nada dura para sempre, nem o sofrimento. Sinta-se abraçado.

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