Melancolia e Cultura Midiática Parte I: A Estética Melancólica

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O texto abaixo é parte editada da monografia intitulada “We were Born to The Blues: uma análise da melancolia em Lana Del Rey e Lady Gaga, defendida pelo autor deste blog na Universidade Federal de Pernambuco. 


A tentativa de definição de uma estética melancólica que pode ser aplicada dentro de uma análise direcionada para videoclipes parte do uso das representações imagéticas deste estado emocional na pintura, fotografia e nas correntes barrocas e românticas, precursoras e principais expoentes desta estética. Mas o que é a melancolia? Obviamente, antes de representar materialmente a abstração do sentimento, o homem sentiu na pele a manifestação da melancolia. Assim, entendendo inicialmente do que se trata este estado humano, é possível situar como a performance melancólica do corpo pode ser representada através das imagens, como a música ganhou forma performatizada dentro de um clipe musical. O intuito aqui não é o de embarcar em conceitos vindos da psicologia nem da psiquiatria, mas criar um ponto de partida para discorrer sobre a estética da melancolia: do grego, mélas – negro e cholé – bílis.

Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da autoestima está ausente no luto; afora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo — na medida em que este não evoca esse alguém —, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrição do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses (FREUD, 1917, informação eletrônica).

A partir de Freud[1] (1917), tem-se uma ideia do que caracteriza a melancolia num sentido, digamos, puro, num indivíduo e consequentemente dá luz para entender como o estado melancólico se materializa no corpo performático. Assim, inicialmente, traduz-se como uma representação melancólica, corpos que sibilam o desânimo, a apatia em relação ao mundo e a tristeza diante da câmera através da dinâmica facial e gestual. Também pode-se inferir questões como a raiva e descontentamento como produtos de um estado reflexivo.

Não há no melancólico, por tanto, a necessidade da perda para então entrar em estado de luto. Existe certa apatia em menor grau em relação aos estímulos agradáveis, o desânimo para o que antes era interessante. “Tem gosto de cinza”, diz Justine ao colocar na boca um pedaço de um de seu pratos preferido no filme Melancolia (2011) do cineasta Lars Von Trier.

A melancolia foi considerada como uma doença por Hipócrates (460- 377 a.C),  pai da medicina. Para ele o melancólico é portador de algo “como um estado de tristeza e medo de longa duração” (GINSZBURG e SCLIAR apud TEIXEIRA, 2005, p. 44). É importante destacar que, hoje em dia, a medicina considera diferenças entre a depressão e a melancolia. O depressivo está doente, em geral incapacitado de realizar a maioria das atividades de que gosta. Provavelmente, se um artista estiver em depressão, assim como um indivíduo que tem outro tipo de profissão, ele não conseguiria realizar o próprio trabalho. A melancolia é um estado reflexivo, não provoca uma dor tão dilacerante quanto a que a depressão pode trazer. Não descartamos assim, a possibilidade de um artista depressivo, em momentos de melhora da doença, poder produzir algum material. Ressaltamos também que há a possibilidade do compositor de expor artisticamente as experiências obtidas de um estado depressivo após a cura da doença.

Hipócrates considera duas formas de melancolia: a endógena, aquela que aparece sem motivo aparente; e a exógena, que surge em resultado de um trauma externo. Nas palavras de Scliar (2003), “A melancolia, sintetizou o ‘pai da medicina’, é a perda do amor pela vida, uma situação na qual a pessoa aspira à morte como se fosse uma bênção.” (p.70). É por meio da “teoria dos humores” que Hipócrates explica a melancolia. O temperamento dependia do equilíbrio de quatro humores básicos no corpo – sangue, bílis amarela, bílis negra e a linfa. O acúmulo de algum dos elementos dos humores resultava no predomínio de determinado temperamento. A bílis negra representava o outono e, como a terra, era fria e seca, tornando-a hostil à vida e podendo ocasionar a melancolia, uma doença resultante de seu acúmulo no baço (TEIXEIRA, 2004, p. 44).

Na estética, campo que nos interessa dentro deste trabalho, evocamos o ideal das correntes barrocas e românticas, linhas que perpassam até hoje elementos imagéticos dentro da música como é perceptível nas subdivisões do rock como o punk, nos góticos e, recentemente, nos emos[2]. A imagética está alocada na maquiagem carregada tanto para os homens como para as mulheres, no contraste da pele branca e dos cabelos pretos, nas roupas escuras, no modo como adeptos destes segmentos enxergam o mundo – na maioria das vezes um lugar feio, de poucos prazeres.  Há muito preto, muita sombra e há o branco também como símbolo estéreo diante do soturno:

A linhagem dos melancólicos se estende modernamente, desde os príncipes e cortesãos do teatro barroco, passa pelos poetas ultrarromânticos, pelos dândis decadentistas, pelos aristocratas neo-barrocos sem poder, e continua até os punks góticos. A ênfase na melancolia contemporânea, a partir do Neo-Barroco, que tem suas raízes nos anos 50, deve ser entendida como uma espécie de acerto de contas geracionais com a segunda metade dos anos 70 e início dos anos 80 deste século. Se não se trata de traçar uma gênese da melancolia, a preocupação com a busca de uma tradição melancólica é fundamental para redimensionar estes anos de dispersão e ceticismo, pós-utópicos, pós-punks, pós-vanquardistas, enfim, pós- modernos. O diálogo com a melancolia barroca vai além da simples reafirmação da desilusão, da constatação de perdas, ele visa dar uma espessura e estatura históricas a um período em geral subestimado quando contraposto aos anos 60 (LOPES, 97, p. 11).

Assim, podemos estabelecer uma relação próxima entre as artes clássicas e os artistas da cultura pop atual que cultivam o que Lopes (1997) chama de “tradição melancólica”. Assim como a felicidade momentânea, a melancolia nunca irá desaparecer da condição humana e para cada ser feliz, sempre haverá outro melancólico.  É como se através das eras a melancolia se reinventasse, afinal o estado melancólico e as necessidades reflexivas são características inerentes ao ser humano que usa a arte como meio de expressão ou de fuga.


[1] É possível encontrar o texto completo da obra “Luto e Melancolia” (1917) em páginas não numeradas disponível na internet. A obra citada está disponível em <https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf > Acesso em 25. Dez. 2014.

[2] Gênero musical dissidente do punk que se popularizou no Brasil entre os anos de 2003 e 2006. Entre as bandas mais influentes dentro da cena pode-se destacar: Fall Out Boy, Simple Plan, AFI, The Used e My Chemical Romance.

 


Referências na ordem em que aparecem no texto

FREUD, Sigmund. “Luto e Melancolia”. 1917 Disponível em < https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf&gt; Acesso em 25. Dez. 2014.

TEIXEIRA, Marco Antonio Rotta. Melancolia e depressão: um resgate histórico e conceitual na psicanálise e na psiquiatria. Revista de Psicologia da UNESP, 4(1), 2005. Disponível em < http://www2.assis.unesp.br/revpsico/index.php/revista/article/viewFile/31/57&gt; Acesso em 11 Jan. 2015.

LOPES, Denilson. Nós os mortos. Rio de Janeiro. Viveiros de Castro Editora Ltda. 1999.

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